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Microsseguros na Favela de Rocinha (Rio de Janeiro) by Hernan Poblete Miranda - HTML preview

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Microsseguros na favela da rocinha

2

A pesquisa para este livro e sua publicação foram feitas com o apoio de

Bradesco Seguros

Agosto 2014

Edição: Denise de Goes

Tradução: Fabiana Dias da Cunha

Design Gráfico: Maurício Hoyuelos

Microsseguros na favela da rocinha

3

Agradecimentos

Este livro é dedicado a todos aqueles que o tornaram possível: Fabiana,

Carlitos, Lucy, Hernán, Gabriela, Damiler, Martín, Magaly, Janet, Silvana,

Thales, Fernanda, Paola, Bolivar, e Eugenio.

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Microsseguros na favela da rocinha

4

Floresta de Tijuca

Lagoa

Copacabana

Rocinha

Ipanema

Océano Atlãntico

São Conrado

Microsseguros na favela da rocinha

5

Entre 2010 e 2013 a Bradesco Seguros desenvolveu uma série de iniciativas para

conhecer em profundidade os principais destinatários de Microsseguros no Brasil. Uma destas iniciativas resultou em uma série de pesquisas apresentadas neste livro e que foram feitas pela consultoria internacional IMR, quem realizou a primeira imersão socioantropológica em favelas e bairros de classe média baixa para a indústria seguradora.

Nosso entendimento da complexidade da população de baixa renda era claro

desde o início. Não se podia fazer generalizações nem utilizar indicadores socioeconô-

micos padrão para conhecer a nova classe C. A população rural do Brasil não pensa e nem se comporta em relação aos riscos e à administração do orçamento familiar da mesma forma que a população dos grandes centros urbanos, muito mais desenvolvida e interconectada, o faz.

Assim sendo, nosso objetivo foi conhecer as distintas e diversas pessoas de um

novo mercado para seguros, juntamente com suas necessidades e aspirações, além de precisar as verdadeiras necessidades de seguros dos indivíduos da nova classe média brasileira.

A partir de então, um amplo horizonte de oportunidades se abriu para a indústria seguradora, permitindo não só definir as características da nova classe C, mas também implantar novas ferramentas de comunicação que hoje nos ajudam a ilustrar de forma muito mais simples e direta os conceitos complexos de nossa indústria.

É com grande satisfação que nós da Bradesco Seguros difundimos um conhe-

cimento de raízes em ciências sociais como a Sociologia e a Antropologia – um tipo de conhecimento que esperamos que revele grandes oportunidades no âmbito do

desenvolvimento social e econômico nas populações de baixa renda. Estamos certos que conceitos como o de Microcentros Comerciais Compostos, aqui apresentado pela primeira vez, poderão ser utilizados para o desenvolvimento e aplicação de políticas públicas e privadas em todo o mundo.

Eugenio Velasques

Diretor Bradesco Seguros

Microsseguros na favela da rocinha

6

Contenido

Introdução ...........................................................................................................................................8

Microcentros Comerciais Compostos..................................................................................... 10

Rocinha e Heliópolis ..................................................................................................................... 14

Dados Quantitativos ..................................................................................................................... 17

1. As representações da Rocinha no imaginário coletivo ..................................................19

Representação social ................................................................................................................... 20

Favela e Pobreza ............................................................................................................................. 23

Entre o asfalto e o morro ............................................................................................................. 25

Identidade cultural e representação. ...................................................................................... 28

Origem do Termo Favela ............................................................................................................ 31

Mudança de foco ........................................................................................................................... 44

A Rocinha não é uma Comunidade ....................................................................................... 45

Por que Localidade?...................................................................................................................... 48

As microáreas ................................................................................................................................. 51

2. Rocinha, uma favela em transformação ...........................................................................53

Urbanização, desenvolvimento econômico e correlação ............................................... 60

3. Por dentro da Rocinha .........................................................................................................69

Vias Principais.................................................................................................................................. 69

Vias Secundárias ............................................................................................................................ 71

Vias terciárias e condições de infraestrutura ....................................................................... 73

Microsseguros na favela da rocinha

7

4. Conceitos espaciais para entender as trocas em espaços informais ...........................75

Tipos de Nodos Comerciais e MCC .......................................................................................... 77

Os tipos ideais ................................................................................................................................. 78

Nodos ................................................................................................................................................. 80

Nodo A ............................................................................................................................................... 81

Os dois NODOS B ........................................................................................................................... 83

Microcentros Comerciais Compostos..................................................................................... 87

5. MCC, muito além de trocas econômicas ...........................................................................91

Lugares de trocas comerciais e pessoais ............................................................................... 93

Biroscas, Mini-Microcentos Comerciais Compostos.......................................................... 98

A relação Nodo-MCC ..................................................................................................................100

6. A dinâmica comercial na Rocinha ....................................................................................102

Números que impressionam ...................................................................................................103

Contradições estatísticas ..........................................................................................................105

7. As dinâmicas familiares na Rocinha.................................................................................112

Núcleos de residência ................................................................................................................115

8. Composição do orçamento familiar ................................................................................120

Gasto versus orçamento familiar .....................................................................122

Evolução da renda e distribuição do gasto ........................................................................126

Administração da renda familiar ............................................................................................129

Gastos x Poupança ......................................................................................................................130

Bem-estar familiar .......................................................................................................................132

9. O contexto dos Microsseguros .........................................................................................135

Valor Irrenunciável & Gasto Moral .........................................................................................137

Decisão Moral ...............................................................................................................................140

Considerações sobre Produtos de Microsseguros ...........................................................141

Atributos Do Produto .................................................................................................................143

10. Conclusão ...........................................................................................................................151

As principais conclusões da pesquisa: .................................................................................154

Referências bibliográficas .........................................................................................................158

Microsseguros na favela da rocinha

8

Introdução

O conceito de pobreza é principalmente econômico, afetando também

outros sistemas, como o social e o cultural. A pobreza é resultado de operações sistêmicas complexas e estruturadas ao longo do tempo, o que torna difícil

sua compreensão sob um olhar superficial. No método descrito neste livro, a

pobreza é associada a um efeito de risco social de caráter urbano – dadas as

implicações de ordem psicológica e espacial que a mobilidade descendente

produz sobre a pessoa exposta à deterioração de sua situação econômica.

É preciso ainda levar em consideração que a influência das represen-

tações sociais delimita a existência de outras formas de entender o Brasil

contemporâneo e determina enfoques científicos especiais que exigem

uma revisão do material acadêmico e bibliográfico produzido desde o

momento de sua aparição como fenômeno, em meados do século XIX, até

os dias atuais. Por isso, para entender a dinâmica da favela como fenômeno

urbano de mobilidade social se faz necessário não só considerar as repre-

sentações sociais construídas pela sociedade brasileira ao longo da história,

mas também explorar as percepções dos moradores da favela a partir de sua

própria ótica.

É dentro de tal contexto de compreensão de risco social e das represen-

tações sociais daquilo que é “favela e favelado” que se encontram os resultados da pesquisa feita pela IMR para a Bradesco Seguros na Rocinha, zona sul do

Rio de Janeiro. Este livro vem compartilhar o conhecimento gerado pelo

estudo que é fruto do trabalho de uma equipe de antropólogos e sociólogos

do Brasil e de países como Chile e Peru. Os pesquisadores adentraram um

mundo desconhecido de grande parte da sociedade brasileira, acostumada

a ver as chamadas favelas apenas desde fora, e trouxeram à luz a vivência de

como foi morar nesse universo e nele se aprofundar para entender e intervir

nas estruturas que o afetam o risco social.

Microsseguros na favela da rocinha

9

Entre janeiro e julho de 2010 a equipe de pesquisadores conviveu com

os residentes da Rocinha para detectar e descrever os fatores culturais de-

terminantes dos comportamentos econômicos. A pesquisa é um processo

misto de análise qualitativa com ilustrações quantitativas – o que permitiu

observar de maneira mais precisa os fenômenos de padrões de consumo e

constituição econômica dos habitantes da Rocinha. O eixo de análise tem

como base conceitual os Microcentros Comerciais Compostos – no texto

frequentemente citado através da sigla MCC. Tal conceito é proposto como

mecanismo metodológico e opracional para levar politicas e ações de desen-

volvimento até espaços urbanos segregados; lugares onde as representações

e preconceitos arraigados na sociedade conspiram contra a implantação de

ações concretas que resultem de forma esperada na luta contra a pobreza.

Será possível ver ao longo do livro como o MCC demonstrou ser

uma metodologia muito efetiva no momento de desenhar e fundamentar

estratégias comerciais, políticas e comunicacionais por parte de uma

companhia do porte da Bradesco Seguros. O caso dos Microsseguros e o

interesse por se aprofundar em seu conhecimento desde uma perspectiva

mais pragmática vem a ser um exemplo concreto de como esta metodologia

pode ser utilizada não apenas para identificar padrões de trocas econômicas

em ambientes de risco social, como também para desenhar ações, implantar

e medir.

Os Microsseguros não são necessariamente um negócio lucrativo,

mas sim uma estrutura que pode ser usada por qualquer governo ou

instituição para incrementar o desenvolvimento econômico de amplas áreas

de população em risco social. Isso porque através e por trás da distribuição

e comunicação de produtos de seguros se está educando a um grande

contingente populacional sobre instrumentos econômicos como poupança,

investimento, contribuição para a previdência, entre outros.

Microsseguros na favela da rocinha

10

Pode-se refletir em um outro momento sobre o caráter inclusivo que

a educação financeira possui no desenvolvimento econômico de regiões

com população em risco social, mas não cabe dúvida que uma grande parte

da população brasileira utiliza de forma equivocada os recursos financeiros

recebidos ou gerados. A educação é essencial e chave.

Em tal sentido, a visão estratégica da Bradesco Seguros em apoiar o

desenvolvimento deste trabalho vem a ser um exemplo a ser seguido, pois

reconhece a utilização de novos métodos de pesquisa para enriquecer suas

operações. Não é comum ver projetos tão ambiciosos no âmbito das ciências

sociais e econômicas quando se trata de utilizar a pesquisa cientifica para

ajustar estratégias comerciais e comunicacionais de caráter privado, pois

se propõe a romper paradigmas tradicionais desde o mundo da iniciativa

privada para apoiar uma ação que resulta em um aporte sem precedentes na

esfera do desenvolvimento social.

Através desta pesquisa a Bradesco Seguros apresenta sua visão de

desenvolvimento desde uma perspectiva acadêmica e desde sua própria

estratégia organizacional, colocando à disposição do mundo privado e

público uma nova proposta de como se deveria intervir e atuar para chegar

ao entendimento inicial da decisão econômica.

Microcentros Comerciais Compostos

A história da observação, descrição e estudo dos Microcentros Comerciais

Compostos é bastante recente. As primeiras descrições foram feitos pela IMR em

2009, durante estudo realizado em bairros do norte de Lima, no Peru. Desde então, novas pesquisas realizadas pela IMR em diversos países e cidades brasileiras,

encontraram a presença e a importante dinâmica socioeconômica e cultural dos

MCC’s em todas as zonas urbanas pesquisadas.

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Microsseguros na favela da rocinha

11

Os MCC’s são estruturas dinâmicas em geral ocultas, ou à margem, dos

grandes centros urbanos. São Microcentros por se tratar de espaços de intercâmbio econômico formados em torno de um bairro, espaços reduzidos se comparados

aos supermercados e shoppings; Comerciais por envolver oferta e demanda de produtos e Compostos devido à multiplicidade de atores que contribuem para o fluxo de sua economia.

Microcentro

Comercial

Composto

Nodo

ESQUEMA 1 – Estrutura Geral de um Microcentro Comercial Composto (MCC)

Microsseguros na favela da rocinha

12

Cabelo

Epidermis

Capilar

Dermis

Nervo

Arterias

Microsseguros na favela da rocinha

13

O funcionamento de um Microcentro Comercial Composto pode ser

entendido por meio do conceito de microcapilaridade e seu papel como

estrutura de distribuição de informação. A microcapilaridade permite

visualizar a fragmentação das relações entre diferentes atores ou grupos

em níveis cada vez menores: quanto mais capilaridade, maior a possibi-

lidade de chegar à raiz ou causa dos fenômenos “visíveis”. O conceito de

microcapilaridade vem associar a capilaridade dos sistemas biológicos aos

sistemas sociais como método de estudo mais aprofundado dos fenômenos

sociais e suas redes de interconexão. Em um sistema biológico, a capilarida-

de parte de uma estrutura macro para estruturas menores e mais simples

formadas por vasos sanguíneos e capilares que conduzem os nutrientes, ou

a informação, de todo o sistema. Tal fluxo vai nutrindo com informações

genéticas e proteínas as células mais afastadas da estrutura central predo-

minante.

Essa ideia pode ser adaptada aos espaços urbanos. Nas cidades, há

centros urbanos em que se concentram os Nodos ou centros comerciais.

Dali partem artérias que chegam até regiões periféricas, cada vez menores e

que constituem os microcentros – marginais ou periféricos ao centro.

São nos Microcentros Comerciais Compostos que se produzem as

trocas econômicas mais importantes e relevantes em espaços urbanos com

distintos tons de informalidade – não exclusivamente favelas.

O território da Rocinha foi minuciosamente estudado e mapeado –

ainda que em uma época anterior à UPP, quando a Rocinha estava sob o

comando do tráfico de drogas. Todo o comércio foi mapeado e classifica-

do segundo os conceitos Nodos Comerciais e Microcentros Comerciais

Compostos.

Microsseguros na favela da rocinha

14

Um dos objetivos principais foi observar e descrever como as relações

comerciais muitas vezes se mesclam com as pessoais a partir dos micro-

centros comerciais. Para isso, o estudo estabeleceu a correlação entre os

processos de urbanização e o desenvolvimento econômico local. Na Rocinha,

a falta de infraestrutura urbanística determina o grau de desenvolvimento

econômico de cada pedacinho da favela.

Rocinha e Heliópolis

Além da Rocinha, no Rio de Janeiro, a pesquisa IMR para a Bradesco

Seguros estudou a favela de Heliópolis, em São Paulo. Encravada na

metrópole paulistana, Heliópolis passou pela mesma análise metodológi-

ca da Rocinha. Ambos os estudos obedeceram a uma estrutura comum de

trabalho e foram realizados no mesmo período de tempo. Isso não significa,

contudo, a inexistência de diferenças marcantes entre os dois universos.

Diferenças que começam pelo fator das características geográficas.

Na Rocinha o acesso ao interior dos Microcentros Comerciais Compostos

é muito mais difícil, pela declividade de seu terreno, do que em Heliópolis

que está sobre um terreno plano. Na Rocinha é possível encontrar zonas

inacessíveis a carros e caminhões, produzindo-se uma aberta correlação

entre centralidade e marginalidade – sendo esta última, diretamente

vinculada à pobreza ante a falta de alcance aos bens e serviços que

permitam o seu desenvolvimento. No caso de Heliópolis, a distinção entre

zonas mais pobres não é tão clara.

Outra diferença que complementa o ponto anterior é que, ante as

dificuldades de acessibilidade e saída, a relação comercial entre os MCC’s

e as chamadas biroscas na Rocinha é muito mais intensa e dependente

que no caso de Heliópolis – onde basta caminhar umas poucas ruas para

Microsseguros na favela da rocinha

15

chegar a um ponto de ônibus e, dentro de meia hora, estar no centro de

São Paulo. Isso significa que em Heliópolis as relações comerciais dos

moradores que vivem próximos aos MCC’s costumam ser mais enfraqueci-

das que na Rocinha.

Uma terceira diferença fundamental se dá pela “natureza” urbana de

cada comunidade – dentro do contexto das respectivas cidades nas quais

estão inseridas. Heliópolis tem características de um espaço urbano, com

ruas e vias acessíveis, quase um bairro – ainda mais porque tende a se

misturar com bairros anexos, sendo que tal fato contribui para uma maior

independência de seus Nodos e Microcentros Comerciais. Se um morador

de Heliópolis não gostar de um determinado produto ou de seu preço,

ele pode, com mais facilidade, tomar a decisão de comprar nos bairros

vizinhos que oferecem preços compatíveis com a renda dos residentes da

comunidade. O mesmo já não acontece com os habitantes da Rocinha. Se

a pessoa não vive nas imediações da Via Ápia, ou em áreas mais consolida-

das e desenvolvidas, a possibilidade de “sair” de seu espaço será menor. E

na hipótese de não encontrar o que precisa dentro da Rocinha, os bairros

vizinhos, de alto poder aquisitivo, não são uma opção viável.

Por fim, existe a distinção encontrada no caráter das Organizações

Comunitárias Centrais de cada comunidade. Em ambas, as organizações

se encontram politizadas e compartilham certos pontos “discursivos” em

comum (“comunidade carente”). Porém, a diferença está na maneira como

elas encaram suas relações com o mundo “externo”; sendo o caso da Rocinha

o mais particular, pois a alta concentração de visitas, interesse político,

turismo, subvenções e atenção midiática fez com que sua Associação

Central de Moradores ficasse altamente condicionada e disposta a lucrar

com isto. Situação que não ocorre com Heliópolis, uma comunidade menos

“solicitada”, sem o mesmo apelo mediático da Rocinha.

Microsseguros na favela da rocinha

16

O presente livro foi organizado de forma que o leitor primeiro tome

contato com as múltiplas realidades simbólicas que as representações

da favela ativam no imaginário coletivo – tanto da representação que

o favelado realiza de si mesmo, quanto daquela contida na opinião da

população não-favelada. Por isso que alguns conceitos centrais utilizados

largamente são desprezados sob uma postura crítica a tais representações –

como o conceito de “comunidade”, tão usado pelos meios de comunicação,

pelas classes políticas e por outras instituições vinculadas ao desenvol-

vimento social – todos sem possuir a consciência do quão distante uma

favela está de ser uma comunidade – e dos erros metodológicos que isso

provoca nos processos de intervenção (públicos e privados).

Em uma segunda parte se aborda a perspectiva do território

estudado a fim de entender a configuração urbana do espaço, mapeada

através das vias principais, secundárias e terciárias de cada comunidade;

e depois possa compreender a dinâmica comercial existente e suas parti-

cularidades: como se distribuem os Nodos e os Microcentros Comerciais

Compostos e como se constroem as relações pessoais e impessoais entre

os moradores.

Uma terceira vertente do livro busca entender como os moradores de

Rocinha e Heliópolis compõem e administram o orçamento familiar. Para

isso, os pesquisadores moraram com algumas famílias para compreender

as formas de obtenção de renda e de gestão de finanças pessoais que são,

em grande parte, informais. Nesse aspecto, é preciso ressaltar que grande

parte do conteúdo do livro se constitui em hipóteses, dado que a pesquisa

não pôde dispor do tempo necessário para chegar a conclusões científicas

e definitivas sobre a economia familiar nas duas comunidades.

Microsseguros na favela da rocinha

17

Dados Quantitativos

O estudo estatístico da Rocinha foi elaborado a partir de uma

amostragem aleatória para que cada morador tivesse a mesma oportu-

nidade de ser entrevistado. Para essas entrevistas foram selecionadas as

localidades de Dionéia, Vila Verde, Fundação, Rua 3, Via Ápia, 199 e Rua 2 e

o trabalho de campo foi realizado durante os dias 3 e 4 de julho de 2010.

Tomou-se uma amostra de 250 entrevistas, com margem de erro de 5%, o

que é usual para esse tipo de estudo. A margem de erro refere-se à variação

natural entre amostras da mesma população, ou seja, se pesquisada uma

amostra adicional de 100 pessoas, 95% dos resultados seriam os mesmos.

A amostra é composta por 40% de homens e 60% de mulheres.

Para estimar o Nível Socioeconômico da Rocinha, foi usada a

metodologia CCEB (Critério de Classificação Econômica Brasil), validada

e utilizada pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. O sistema

pretende ser uma forma única de avaliar o poder aquisitivo dos grupos de

consumidores e não classifica a população em termos de “classes sociais”,

mas em um mercado que se divide unicamente em classes econômicas.

Tal classificação é feita com base na posse de bens e não na renda familiar.

Para cada bem há uma pontuação e cada classe é definida pela soma dessa

pontuação. As classes definidas pelo CCEB são A1, A2, B1, B2, C, D e E.

Esse critério foi construído para definir grandes classes que atendam às

necessidades de segmentação (por poder aquisitivo) da grande maioria

das empresas.

Há que ressaltar que não se tinha, para o presente estudo, informação

prévia sobre a distribuição socioeconômica da Rocinha e que, evidente-

mente, tal distribuição não é a mesma da cidade do Rio de Janeiro. Foi pre-

cisamente por esta razão que se utilizou o sistema CCEB como uma forma

Microsseguros na favela da rocinha

18

de introduzir um critério de representação válido sobre a configuração

de nível socioeconômico na Rocinha para, posteriormente, ser utilizado

como base comparativa na análise dos orçamentos familiares compostos

que ativam os MCCs.

Boa leitura!

Hernán Poblete Miranda

Diretor IMR

Microsseguros na favela da rocinha

19

1. As representações da Rocinha

no imaginário coletivo

O estudo IMR revelou a existência de uma certa “cultura da pobreza”,

que passaria de uma geração a outra da Rocinha junto com a incorporação de

valores que colocam em xeque o conceito de pobre, visto sob a ótica de aspectos econômicos e sociais. A pobreza é resultado de processos complexos e propagados ao longo do tempo, que são difíceis de apreciar sob um olhar superficial, por

exigirem pesquisas e estudos contínuos, a fim de alcançar sua compreensão, antes que se possa planejar qualquer tipo de tentativa de erradicá-la.

Na Rocinha, a cultura da pobreza vem sendo mantida como um círculo vicioso

capaz de garantir aos pobres condições de sobrevida na sociedade moderna1, um

modo de vida que terminaria por gerar uma “síndrome” específica das populações

de baixa renda, em que tanto se manifesta “um espírito de resignação e de

fatalismo frente ao futuro, quanto uma certa ‘alegria de viver’ e uma forte dose de calor humano, tornando as dificuldades cotidianas mais suportáveis”.2

Por trás dessa cultura da pobreza, há, na verdade, um jogo de interesses

políticos. Por um lado, ao reforçar a situação de pobreza na Rocinha, o Estado

mantém sua influência política e econômica sobre a favela. Por outro, também

interessa aos moradores manter os benefícios sociais.

Entretanto, já é possível observar na Rocinha elementos mais comuns em

outros círculos econômicos, apontando a inserção da favela em valores de outras camadas sociais. A possibilidade de acesso a uma assinatura mensal de TV paga

é um exemplo. A TV Roc, instituída em 1996, por meio de um contrato com a

operadora Net, possibilitou a criação de uma operadora de televisão por assinatura 1 Segundo assinala Oscar Lewis, antropólogo norte-americano, cujo trabalho de campo nos grandes cortiços das zonas centrais do México serviu de base ao seu best-seller Five Families (Lewis, 1959) 2 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.

Microsseguros na favela da rocinha

20

e de um canal comunitário. Em 2010, custava entre R$ 30 e R$ 35, com R$ 60 pela adesão, e dava acesso a mais de 40 canais, entre a TV aberta, paga e comunitária.

Exclusiva para os habitantes da Rocinha, em 2003, o número de assinaturas já era de cerca de 28 mil. A pesquisadora Lícia Valladares mostrou que, naquele ano,

além do canal de TV exclusivo, já havia outros elementos que permitiam constatar o grau de inserção da localidade no espaço urbano. “Quando adentramos a

Rocinha, ficamos espantados ao encontrar, ao mesmo tempo, uma sorveteria

franqueada da cadeia McDonald’s, aberta dia e noite (que em abril de 2000 teve

a maior venda de sorvetes do Rio), três sucursais da loja de material fotográfico DePlá, três pontos de venda – formais – de telefones celulares, videoclubes em

profusão, agências bancárias, assim como uma agência dos Correios.”3

Ao longo da pesquisa foram constatadas as mudanças ocorridas em dez

anos, ou seja, entre 2000 e 2010. Contudo, a diferença entre a representação social da Rocinha e a sua realidade se mantém evidente.

Representação social

Em primeiro lugar é preciso entender o conceito de representação social –

ideia que se situa nas fronteiras entre a sociologia e a psicologia – para compreender como essa diferença se mantém ao longo do tempo.

O conceito de representação coletiva foi elaborado pelo sociólogo francês

Emile Durkheim (1858-1917), para a construção de uma teoria da religião e da

magia. Segundo o pensador, esses fenômenos coletivos eram diferentes dos

fenômenos individuais. Para ele, a individualidade humana se constituiria a partir da sociedade, pois o conhecimento do grupo teria origem na vida social. A religião, por exemplo, seria produto de uma comunidade, ou de um povo. Assim, Durkheim

fazia uma clara distinção entre as representações individuais, que comandariam a vida de cada pessoa, e as representações coletivas, que regeriam a vida coletiva.

Ao pensador interessava estudar a sociedade. Caberia à Psicologia o estudo das

representações individuais.

3 Ibid., 146

Microsseguros na favela da rocinha

21

As representações coletivas, como foram definidas pelo sociólogo francês,

seriam fenômenos estáticos e imutáveis com a função de transmitir a herança

coletiva dos antepassados. Assim, significaria a lei, a moral, os costumes, as instituições políticas, as práticas pedagógicas, ou seja a “consciência coletiva”.

A principal crítica a esse pensamento é a de que ele não daria conta da

complexidade da sociedade moderna. Novos elementos foram introduzidos pelo

romeno Serge Moscovici, em 1961, que, ao resgatar o conceito de representação

coletiva de Durkheim, criou o conceito de representações sociais. O psicólogo

romeno acredita que o indivíduo tem papel ativo no processo de construção da

sociedade e fala em representações sociais, como “conjunto de conceitos, frases e explicações originadas na vida diária durante o curso das comunicações interpessoais”. 4

O antropólogo e linguista francês Dan Sperber fez uma analogia com a

medicina para diferenciar a representação coletiva da social. Segundo ele, a mente humana é suscetível a representações culturais, do mesmo modo que o corpo

humano é susceptível a doenças5:

Coletivas: representações duradouras, tradicionais, amplamente distri-

buídas, ligadas à cultura, transmitidas lentamente por gerações; comparadas à

endemia.

Sociais: típicas de culturas modernas, espalham-se rapidamente por toda a

população, têm curto período de vida, semelhante aos “modismos”; comparadas

à epidemia.

4 MOSCOVICI,S. On social representation. In FORGAS, J.P. (ed).Social cogbution. London: Academic Press, 1981,p.191)

5 Sperber (citado por Alexandre, Op. Cit.)

Microsseguros na favela da rocinha

22

De acordo com Marcos Alexandre 6, as representações sociais são uma

modalidade particular porque não é todo ‘conhecimento’ que pode ser considerado representação social, mas somente aquele que faz parte da vida cotidiana das

pessoas, pelo senso comum, que é elaborado socialmente e funciona no sentido

de interpretar, pensar e agir sobre a realidade. É um conhecimento prático, que se opõe ao pensamento científico, porém se parece com ele, assim como aos mitos,

no que diz respeito à elaboração desses conhecimentos a partir de um conteúdo

simbólico e prático.7

Segundo, ainda, Marcos Alexandre, a teoria da representação social

permitiria acompanhar o

cotidiano dos indivíduos, considerando seus valores e identidades culturais,

buscando suas verdadeiras raízes e origens, proporcionando o descobrimento de

aspectos antigos e novos de sua identidade.

Um ponto importante que destaca em seu artigo é que as representações

do mundo social são sempre determinadas pelos interesses de grupos. Além disso,

“as lutas de representações têm tanta importância quanto as lutas econômicas,

para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a

sua concepção do mundo social, os seus valores, o seu domínio”. 8

Essa ideia está muito presente ao analisar as representações sociais que se

formaram em torno da favela. E aqui, especificamente, no caso da Rocinha.

6 ALEXANDRE, Marcos. Representação Social: uma genealogia do conceito. Revista Comum. Rio de Janeiro - v.10 - nº 23 - p. 122 a 138 - julho / dezembro 2004

7 Ibid

8 ibid

Microsseguros na favela da rocinha

23

Favela e Pobreza

Desde o século XIX, tem havido uma evolução na sociedade brasileira

com respeito as representações sociais da favela9. Nos últimos trinta anos,

a literatura voltada para o tema, especialmente das favelas cariocas,

vem registrando algumas características básicas, de caráter social. Lícia

Valladares, em seu livro A invenção da favela, por exemplo, faz uma análise crítica do que chama de “dogmas”, indicando que eles apenas tentam

reduzir a diversidade da favela por meio de olhares limitados que buscam

homogeneizar.

Entre os dogmas assinalados pela autora estão a especificidade da

favela, que sublinha a maneira peculiar como ela ocupa o espaço urbano,

fora das regularidades e das normas urbanas, sem ruas bem traçadas, com

poucos ou ausentes serviços e equipamentos coletivos. Isto é, a favela como

um espaço urbano específico e singular. Segundo Lícia Valladares, todos

os organismos oficiais _ arquitetos, juristas, pesquisadores _ ou justificam

suas abordagens lembrando que a favela é irregular e ilegal ou a valorizam

pela estética única etc. Outra característica ou dogma é a favela vista como

locus da pobreza, o território urbano dos pobres. A teoria da marginalidade também é usada para promover essa visão. Por fim, a favela como unidade:

ainda que todos reconheçam tratar-se de uma realidade múltipla, todos

se deixam levar pelo hábito de reduzir um universo plural a uma categoria

única.

9 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.

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24

41%

32%

18%

9%

B2

C1

C2

D

Figura 1 – Distribuição GSE na Rocinha (IMR, 2010)

“A trajetória certamente atípica desses indivíduos apresenta uma nova

questão às Ciências Sociais brasileiras: a necessidade de desenvolver uma

sociologia da mobilidade social, até hoje pouco presente na pesquisa. O desen-

volvimento dessa área temática permitiria justamente abandonar a limitação da

categoria construída pelos dogmas, fazendo aparecer claramente o complexo

processo de diferenciação social que está ocorrendo na sociedade brasileira,

inclusive nas favelas. É possível ser pobre e não residir em uma favela, ou morar na favela acreditando na possibilidade de uma ascensão social. Se deixarmos de

confundir os processos sociais observados na favela com os processos sociais

causados pela favela, será possível compreender fenômenos que, apesar de se ma-

nifestarem, de fato, nas favelas, também se manifestam em outros lugares. Nossa proposta é que as favelas deixem de ser o campo sistematicamente utilizado para estudar as mais variadas questões ligadas à pobreza. Só assim deixaremos de

confundir favela e pobreza.10

10 Ibid, 163

Microsseguros na favela da rocinha

25

Entre o asfalto e o morro

A favela é um espaço urbano não reconhecido como tal. Ao longo de sua

história, sempre foi vista como algo distante e indesejável. Uma espécie de chaga urbana, uma ferida no morro. Os dogmas que a permeiam seriam fruto disso.

Poucos moradores do ‘asfalto’, como dizem os habitantes da favela,

conhecem realmente o interior de uma delas; poucos se aventuraram a subir os

morros. Então, é natural que o imaginário urbano reforce a representação negativa da favela, sempre ligada à violência e à pobreza.

Se por um lado os moradores da favela frequentam o espaço urbano

“normal”, “formal”, “legal”, “urbanizado”, local de trabalho, de consumo e de lazer, interagindo com os demais habitantes da cidade, o mesmo nem sempre acontece

com os moradores do “asfalto”. Aqueles que vem “de fora” (acadêmicos, políticos, religiosos) tendem a enxergar a favela a partir de representações sociais criadas sob valores impostos socialmente. Os turistas estão ainda mais predispostos a

acreditar em uma realidade “inventada”, com estereótipos em suas represen-

tações estéticas, pelas quais chegam a pagar dentro de um conceito de turismo

“de aventura”. Se o Brasil é uma selva, a favela é o seu safari!

Há um abismo entre os dois espaços – favela e cidade – , mantido por

interesses sociais e reforçado por um discurso de dominação. Nessa relação, os

habitantes da favela têm a vantagem de conhecer os dois mundos e, em ambos,

poder transitar, não obstante a polarização morro/asfalto: “(...) apesar do retorno ao regime democrático, o afastamento entre ricos e pobres não deixou de

aumentar, o esforço dos ricos para preservar seus privilégios passou a ser cada vez mais vigoroso e o abandono social pelo Estado mais manifesto. As categorias populares, abandonadas à sua sorte e excluídas de qualquer projeto de transformação social, assistiram ao espaço urbano ser privatizado e à segregação atingir uma intensidade até então desconhecida. (...) As favelas adquirem uma nova

dinâmica social, caracterizada em particular pelo papel crescente do tráfico de drogas, inclusive no financiamento dos serviços locais, no domínio das associações Microsseguros na favela da rocinha

26

de moradores e na vida local. Nesta representação, as favelas passam a ser con-

sideradas como o lugar, por excelência, da exclusão moderna. Às tradicionais

imagens depreciativas, inspiradas pela favela e sua população no tempo da teoria da marginalidade, acrescenta-se agora um novo estigma – ligado às conseqüências sociais e políticas negativas da globalização.”11

Desde o seu surgimento, se produz uma distinção muito clara entre a favela

e a cidade. A história brasileira moderna está marcada por essa dualidade: quem mora na favela, não mora na cidade, e vice-versa. A música é um bom exemplo,

ou mesmo um reflexo disso. sendo os elementos definidores traçados a partir

da e com referência à cidade. Jane Souto de Oliveira e Maria Hortense Marcier

destacam que

“quando isso ocorre, o que chama a atenção, num primeiro plano, é a rígida

demarcação que se estabelece entre ambas, fazendo com que a cidade seja vista

como uma coisa e a favela como outra. Inúmeras são as referências musicais

que tratam a favela como algo alheio, algo que não faz parte, algo, enfim, que é distinto da cidade – não importa a situação, os personagens ou os sentimentos

que ai estejam envolvidos. (...) Essa demarcação se mostra, desde o início, nas composições (...) que estabelecem o confronto entre o samba do “morro” e o do

“asfalto”. Ela permeia também o tratamento de um tema explorado principalmen-

te nas letras musicais dos anos 1930 e 1950: a trajetória de indivíduos que deixam a favela e buscam se afirmar na cidade. Tais tentativas, como que fadadas ao

insucesso, se revestem quase sempre de um caráter dramático: o afastamento de

suas raízes, de seu local de criação e de seu grupo de referência levaria o indivíduo a se ‘perder’ na cidade. Em oposição ao senso comum, que faz da favela o local

do perigo, é a cidade que, significativamente, passa aqui a exercer esse papel. A ênfase, contudo, se centra na inviabilidade do deslocamento favela-cidade, como se muralhas intransponíveis estivessem a separar uma da outra.12

11 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008. p. 143.

12 Souto de Oliveira e Marcier, em Zaluar, 90

Microsseguros na favela da rocinha

27

Foi num samba/ De gente bamba/ Que eu te conheci, faceira/

Fazendo visagem / Passando rasteira / E desceste lá do morro/ Pra viver

aqui na cidade/ Deixando os companheiros / Tristes, loucos de saudade/

Linda criança, tenho fé, tenho esperança/ Que um dia hás de voltar/

Direitinho ao teu lugar. Faceira (1931) Ary Barroso

A distinção entre morro e asfalto também se manifesta no futebol. No Rio

de Janeiro, o torcedor do Flamengo é estigmatizado como sendo “um favelado”. As torcidas dos demais times (e nas quais pode haver muitos moradores de favelas)

costumam gritar para a torcida rubro-negra, quando ela se cala diante de uma

situação adversa para seu time: “ela, ela, ela: silêncio na favela”. Um reconhecimento do estereótipo de que todo torcedor do Flamengo é pobre e, portanto,

favelado. Cria-se assim uma situação interessante, pois torcedores de outros

times, como Botafogo, Vasco, ou mesmo do Fluminense, time cuja imagem está

ligada à elite carioca, também moradores das favelas, não se reconhecem como

tal ao usar o “grito de guerra” pejorativo, com a intenção de ofender e depreciar a torcida flamenguista.

A imagem do favelado, deturpada e repleta de preconceito, se mantém

como representação social por meio da opinião pública. A mídia – olhos, boca

e ouvidos da opinião pública – potencializa as representações cada vez que a

polícia sobe o morro atrás de traficante; no desaparecimento de um morador

ou quando algum integrante da indústria do entretenimento americana resolve

gravar algo dentro das favelas. Se negativo ou positivo o fato, o que fica, no final, é a perpetuação do pensar a “favela” e representá-la como, historicamente, sempre foi pensada e representada: em oposições entre um mundo ordenado – o asfalto

urbano, “nosso mundo”; o político, “o Estado”; o social, “o ser” – e um mundo

anárquico, desordenado, exótico, sem regras – o morro não urbano, “o mundo

deles”; o político, “o Poder paralelo”; o social, “a improvisação do estar”.

Atraídos pela curiosidade por saber como vive o favelado, os turistas,

parecem reconhecer a favela como espaço urbano, um espaço exótico, cheio

Microsseguros na favela da rocinha

28

de particularidades estranhas a eles, mas, ainda sim, um local a ser conhecido

e desbravado. O turista muitas vezes surpreende o próprio morador. A equipe

de pesquisadores do IMR viu uma moradora da Rocinha reagir indignada ao ver

turistas estrangeiros no local: “Como pode sair lá do estrangeiro para visitar isso aqui?” Isso aqui: a favela!

A descoberta da favela pelo turismo profissional parece ter sido um sinal da

integração dos espaços à modernidade e à economia de mercado.

“O Jeep Tour, criado em 1992, pega o turista nos hotéis e oferece, pela quantia de 30 dólares, um passeio de três horas, acompanhado de um guia em inglês,

francês ou espanhol. Para o turista ter acesso a creches, escolas ou à associação de moradores, são necessárias doações feitas diretamente aos locais visitados”.13

Contudo, ao olhar o favela de cima de seu carro, o turista reproduz o es-

tranhamento que o distancia do morador do morro. Por isso, o tratar a visita à

favela como turismo de aventura, um safari na selva urbana. A classe de turismo

“de aventura” é uma classe de risco, mas apenas aparente, pois se levanta ao seu redor um alto sistema de controle das possibilidades de risco.

Desse modo, a reflexão de qualquer estudo inicial sobre a favela deve refletir

acerca do binômio forma e conteúdo. No fundo, a forma que a favela toma é o que mais influencia na maneira como, quem está de fora, tende a pensar e perceber

seu conteúdo. A imagem tem um poder até maior que o da palavra. A simples

imagem da favela leva a pensar em pobreza.

Identidade cultural e representação.

A Rocinha tem uma forte identidade com a cultura nordestina, mas também

sofre grande influência da cultura local. Nas ‘quebradas’ do morro, o forró e o funk se misturam ao samba. No comércio, há uma variedade imensa de produtos

nordestinos, além da tradicional feira, aos domingos, no Largo do Boiadeiro. Na 13 Valladares, 156

Microsseguros na favela da rocinha

29

favela, os bailes funk reúnem centenas de pessoas, além de atrair jovens dos

bairros vizinhos, que procuram ali uma alternativa de diversão. Aqui mais uma

vez, a busca pelo exótico, o diferente é que leva jovens da classe média carioca a procurar o morro. Contudo, esse é um morro civilizado, é o pé do morro, pois as festas mais procuradas por essa população estão na entrada da favela. Poucos se aventuram no interior da favela.

Na localidade, por sua vez, são os filhos e netos daqueles nordestinos, que

migraram para o Rio de Janeiro há décadas, que hoje lotam os espaços dedicados

ao funk. Além do “funk”, o samba também tem seu lugar. A escola de samba

Acadêmicos da Rocinha tem se destacado nos últimos anos. Entretanto, a identi-

ficação com o samba não se limita apenas à escola. Existem diversos blocos que

desfilam pela favela e nos bairros do entorno, durante o carnaval. Um deles é o Ai que vergonha, único bloco da Rocinha a ter autorização da empresa de turismo do Rio, a Riotur, para desfilar oficialmente no carnaval carioca pelas ruas do bairro de São Conrado. O bloco, em geral, apresenta um tema político e de maneira

sarcástica denuncia situações que envergonham a população.

Esse misto de nordestino e carioca transformou a Rocinha em um dos locais

com maior diversidade do Rio de Janeiro. Talvez seja esse o motivo pelo qual a

favela continue recebendo novos moradores, além de consumidores culturais,

tendo em vista que ela ainda oferece uma série de eventos que são realizados com a presença de celebridades. Por isso, a Rocinha atrai turistas de diversas partes do Brasil e do mundo, além, é claro, de um fiel mercado consumidor de produtos

nordestinos e locais.

Em meio a ideias pré-concebidas, é preciso visualizar a favela a partir de

uma outra perspectiva, que questione os dogmas e as representações construídas

para retratar de forma uniforme e homogênea o espaço da comunidade.

Diversos atores de políticas públicas, desde políticos até mesmo as associações de moradores, se encarregaram de sustentar e perpetuar essa visão equivocada

– que, para o propósito de um trabalho de intervenção em desenvolvimento,

Microsseguros na favela da rocinha

30

impede a realização de uma ação clara e concreta, que permita chegar aos núcleos originadores do fenômeno.

Para o IMR, a favela não é um todo homogêneo, constituído de gente

pobre; uma “comunidade carente”, mas sim um crisol de heterogeneidade, na qual

convivem as mais diversas expressões, experiências, sonhos, mercados e expecta-

tivas. Todos os dados coletados durante a pesquisa questionam a visão excessivamente homogeneizadora das favelas.

Estudos realizados por Lícia Valladares, a partir de dados de 1991, “permitiram demonstrar que, ao contrário da visão dominante, as favelas apresentam sinais

evidentes de heterogeneidade em sua realidade física, espacial e social _ a tal ponto que se torna impossível alinhá-las em uma categoria única e distinta”. 14

Apesar da existência de diferenças entre as favelas e dentro delas – dado

que os poderes públicos não ignoram – é sempre mais eficaz prever um alvo

homogêneo, ao qual corresponderão exatamente programas especiais, capazes

de resolver problemas sociais bem identificados, não contestados pela base, nem pelos políticos. Daí o interesse pelo postulado do caráter uniforme do espaço das favelas, do qual é possível deduzir rapidamente, e sem qualquer dificuldade, a ho-mogeneidade de seus habitantes, privilegiando suas características dominantes.

A permanência da expressão “população de baixa renda” empregada desde a

época do BNH, criado em 1964, e mantido no Programa Favela-Bairro, testemunha

essa tendência. Apesar de os habitantes das favelas estarem inseridos de maneira diferenciada no mercado de trabalho (assalariados, autônomos, trabalhadores

informais), recebendo rendimentos regulares, ocasionais ou sazonais; baixos ou

médios; pagando aluguel ou sendo “proprietários”; analfabetos ou diplomados

em nível superior, estarão sempre incluídos num grupo único: “os pobres”.

“Pelos anos 60 já é possível observar práticas de organização mais sofistica-

das entre os favelados, mas estas eram muito dependentes de políticos demagogos 14 Valladares, 157

Microsseguros na favela da rocinha

31

e de seus cabos eleitorais. Se os favelados já eram capazes de se organizar coletivamente, permaneciam dependentes de mediadores ligados às agências públicas

e à Igreja. É nessa década que processos de intervenção, como um acordo entre

as associações de moradores das favelas e a Coordenação dos Serviços Sociais do Estado da Guanabara, geram um novo laço de dependência administrativa que

reforçou as diferenças sociais internas já existentes nas favelas, onde era preciso reconhecer a presença de uma “burguesia favelada”, que assegurava o seu poder por meio do controle dos recursos locais (como as redes de água e eletricidade, mesmo precárias) e muitas vezes também pelo controle das associações de moradores”. 15

Origem do Termo Favela

“Estudar uma favela carioca, hoje, é sobretudo combater certo senso comum

que já possui longa história e um pensamento acadêmico que apenas reproduz

parte das imagens, ideias e práticas correntes que lhe dizem respeito e, até certo ponto, mapeiam as etapas de elaboração de uma mitologia urbana. É também

tentar mostrar, por exemplo, que a favela não é o mundo da desordem, que a ideia de carência (“comunidades carentes”), de falta, é insuficiente para entendê-la. É, por fim, mostrar que a favela não é periferia nem está à margem: Acari, por exemplo, é o centro ou Nodo de uma série de práticas e estratégias de grupos bem específicos: a burocracia municipal, estadual e federal, políticos e/ou candidatos, jornalistas, policiais, membros de entidades civis, laicas e religiosas, associações de moradores, comerciantes, traficantes, moradores em geral e, last but not least, pesquisadores atuando de forma perene ou ocasional e influindo no cotidiano da favela.”16 Alba zaluar

Favela – Conjunto de habitações populares, geralmente construídas

sem planejamento, no qual residem pessoas de baixa renda; morro

(Dicionário Houaiss)

15 Ibid, 116

16 Zaluar e Altivo: UM SÉCULO DE FAVELA, FGV Editora, Rio de Janeiro, 2006, p. 12

Microsseguros na favela da rocinha

32

Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse tipo de

habitação é um: “aglomerado subnormal (favelas e similares) é um conjunto

constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais, ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou não), dispostas de forma desordenada e densa, carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais”.

A favela, tal como é conhecida hoje, começou a fazer parte da paisagem

urbana do Rio de Janeiro no início do século XX. E, desde essa época, já era

considerada um problema social. Relatos de jornalistas, cronistas, médicos, entre outros, levam a associar a ocupação do Morro da Providência, localizado na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, atrás da Central do Brasil, ao povoado de Canudos, na Bahia. Ex-combatentes da Guerra de Canudos (1896-97) teriam ali

se estabelecido após a campanha contra o beato Antônio Conselheiro, no sertão

baiano, passando a chamá-lo, de Morro da Favella.

Assim, o termo favela foi popularizado pelos veteranos da Guerra. “Muitos

soldados vieram acompanhados de suas ‘cabrochas’. Eles tiveram que arranjar

moradas. (...) As cabrochas eram naturais de uma serra chamada favela no

município de Monte Santo, naquele estado. Falavam muito, sempre da sua Bahia,

do seu morro. E ficou a favela nos morros cariocas. Primeiro, na aba da Providência, morro em que já morava uma numerosa população; depois foi subindo, virou para

o outro lado, para o Livramento. Nascera a Favela, 1897”17.

Segundo Lícia Valladares, “a maior parte dos comentaristas apresenta duas

razões para essa mudança de nome: 1ª) a planta favella, que dera seu nome ao

Morro Favella – situado no município de Monte Santo no Estado da Bahia – ser

também encontrada na vegetação que cobria o Morro da Providência; e 2ª) a

feroz resistência dos combatentes entrincheirados nesse morro baiano da Favella, durante a guerra de Canudos, ter retardado a vitória final do Exército da República e a tomada dessa posição, representando uma virada decisiva da batalha.”18

17 Zaluar e Alvito, 65

18 Valladares, Licia do Prado; “A Invenção da Favela, Do Mito de origem a Favela.Com”; FGV Editora; Rio de Janeiro, 2008.

Microsseguros na favela da rocinha

33

Contudo, foi o livro Os sertões, publicado, em 1902, pelo jornalista Euclides da Cunha que deu início ao processo das representações, cuja relevância para esta análise será aqui abordada. O acontecimento em que o Morro da Providência foi

rebatizado como Morro da Favella teria passado despercebido e essa palavra não

teria alcançado a posteridade que conheceu “sem as imagens fortes e marcantes

transmitidas por meio de Os sertões. Imagens capazes de permitir aos intelectuais brasileiros da época compreender e interpretar a favela emergente.”19

Em seu livro Euclides da Cunha descreve a região do sertão baiano em que

havia se estabelecido a comunidade de fiéis do beato Conselheiro. Na descrição, o jornalista fala de uma “elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos…”. O nome do morro estaria ligado a uma planta comum por ali, as favellas, cujo nome científico era Jatropha phyllacantha, também conhecida como faveleira e mandioca-brava.

Em sua análise, Valladares demonstra a profunda influência do livro de

Euclides da Cunha sobre os primeiros observadores da favela. Ela aponta alguns

elementos que constituem o que chama de mito fundador da favela carioca. Esses elementos também seriam fundamentais para entender a fundação da grande

maioria das favelas brasileiras, ainda presentes na memória coletiva.

Esses elementos são20: (Valladares, 36)

• Especificidades de um processo de crescimento urbano (ainda que

fosse um povoado em área rural) rápido, desordenado e precário;

• Topografia de uma região de morros que faz dela um verdadeiro bas-

tião, de acesso muito difícil;

• Ausência de propriedade privada do solo, substituída pela proprieda-

de coletiva da terra;

19 Valladares, 30

20 Ibid, 36

Microsseguros na favela da rocinha

34

• Ausência do domínio do Estado e das instituições públicas (leis, polí-

cia, municipalidades etc.) nesse território rebelado contra a Repúbli-

ca;

• Ordem política específica, marcada pelo domínio do chefe (Antônio

Conselheiro, líder carismático que desviou o povo de suas obrigações)

(...) pregando abertamente a insurreição contra as leis;

• Espaço capaz de condicionar o comportamento dos indivíduos, in-

tegrando os recém-chegados à identidade coletiva, homogênea e

uniforme do grupo (...) ideia de comunidades, tão presente no campo

analisado por Euclides da Cunha, acabou por ser igualmente associa-

da à favela carioca, servindo de modelo;

• Comportamento moral revoltante para o observador, marcado pelo

deboche, pela promiscuidade e ausência de trabalho, uma economia

fundamentada no roubo e nas pilhagens;

• Um perigo para a ordem social de toda a região, inclusive de todo o

sertão, um considerável risco de contágio.

E Valladres explica: “No começo dessa analogia, as respectivas represen-

tações aparecem fortemente estruturadas pelas preocupações políticas relativas à consolidação da jovem República, saúde da sociedade e entrada na modernidade.

A favela pertence ao mundo antigo, bárbaro, do qual é preciso distanciar-se para alcançar a civilização. (...) A imagem matriz da favela já estava, portanto, construída e dada a partir do olhar arguto e curioso do jornalista/observador. ‘Um outro

mundo’, muito mais próximo da roça, do sertão, ‘longe da cidade’. (...) Universo exótico, em meio a uma pobreza originalmente concentrada no centro da cidade,

em cortiços e outras modalidades de habitações coletivas, prolongavam-se agora, morro acima, ameaçando o restante da cidade. (...) Estava descoberta a favela e lançadas as bases necessárias para sua transformação em problema”. 21

21 Ibid

Microsseguros na favela da rocinha

35

Os elementos do mito fundador da favela trazem em si a gênese da história

das representações da favela como “problema”22. (Valladares)

Anos 1930

Início dos processos de favelização do Rio de Janeiro e reconhecimento da

existência da favela pelo Código de Obras de 1937

Como lembra a pesquisadora, a constituição das favelas no início do século

XX também esteve ligada, no Rio de Janeiro, a uma política de retirada dos cortiços, considerados como ‘antros’ de pobreza em que moravam trabalhadores, mas boa

parte de vadios e malandros. A cidade enfrentava problemas por causa da falta de moradia e não parava de crescer. Entre 1902 e 1906, o prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913) promoveu uma intensa reforma urbana, com o objetivo de

sanear a cidade e promover ações de higienização. Primeiro, foram proibidas as

instalações de novos cortiços, depois muitos foram destruídos para ampliação de vias e construção de “prédios modernos”, muitos deles de inspiração parisiense. O

mais famoso cortiço da cidade, o Cabeça de Porco, foi desocupado e muitos dos

seus moradores não tiveram outra alternativa do que ocupar os morros, entre eles o da Providência, ou da Favella. De acordo com Valladares, só depois da campanha contra o cortiço é que ocupação dos morros passou a ser vista como novo espaço geográfico e social relacionado à pobreza. Pois, assim como os antigos cortiços, as favelas eram consideradas um problema de saúde pública e segurança.

Na imprensa, a favela era representada como sinônimo de marginalidade.

Um exemplo disso é que em julho de 1909, o Correio da Manhã afirmava: “A Favela (...) é a aldeia do mal. Enfim, e por isso, por lhe parecer que essa gente não tem deveres nem direitos em face da lei, a polícia não cogita de vigilância sobre ela”.

Segundo a antropóloga Alba Zaluar, na virada do século XX já existiam barracos

parecidos com os da Favella em outros morros do Rio de Janeiro e aos poucos o

termo virou sinônimo de comunidade carente. “As pessoas olhavam, viam as casas

22 Ibid, 36

Microsseguros na favela da rocinha

36

de zinco parecidas com as do morro do centro e também chamavam de favela.

Resultado: favela virou substantivo”, diz a organizadora, junto com o historiador Marcos Alvito, do livro Um século de favela.

A partir da década de 1910, as favelas cresceram mais intensamente,

inclusive na zona sul e o seu crescimento foi acompanhado, nessa mesma década,

pela repressão.

Em 1927, chega ao Rio o urbanista francês Alfrede Agache, convidado pelo

prefeito Antônio Prado Júnior (1880-1959) para remodelar a cidade. Em 1930, o

plano do urbanista francês denuncia o perigo representado pela permanência

da favela, justificando a sua destruição como uma questão de saúde pública

e também de estética. Em 1937, o Código de Obras proibiu a criação de novas

favelas ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, reconheceu a sua existência,

propondo-se a controlar o seu crescimento. Foi o primeiro texto jurídico a empregar o termo favela e a oficializar a ligação entre favelas e ilegalidade, aprofundando a dualidade com a cidade. Como não existiam oficialmente, esses espaços públicos

careciam de investimentos.

Anos 1940

A primeira proposta de intervenção pública corresponde à criação dos parques proletários durante o período Vargas

No Estado Novo, nos anos 1940, surgiram no Rio de Janeiro os parques

proletários para abrigar moradores de favelas. O sociólogo Marcelo Bauman Burgos explica que os parques foram a primeira política habitacional para a população de baixa renda na cidade. Entre os anos 1942 e 1943, três parques receberam oito mil pessoas das favelas da Gávea, Cafu e Leblon. Os moradores tiveram a promessa de que a moradia no parque seria provisória e que voltariam às áreas de origem após a urbanização, o que não aconteceu. Segundo Burgos, o objetivo do governo do

prefeito Henrique Dodsworth, nomeado para o cargo por Getúlio Vargas, seria

controlar a parcela da população que vivia nos morros. Por isso, talvez, a exigência de atestado de bons antecedentes dos moradores.

Microsseguros na favela da rocinha

37

Os moradores do Parque Proletário da Gávea só seriam removidos, e fixados

na Cidade de Deus, na década de 1970.

Durante os anos 1940, a população das favelas passou a representar um

novo perigo: o possível envolvimento com o comunismo. Diante da “ameaça

comunista”, Estado e Igreja católica se uniram e criaram, em 1946, a Fundação

Leão XIII, entidade assistencialista para subir os morros e evitar a influência do Partido Comunista Brasileiro.

Foi a partir de 1945 que as favelas passaram a servir como instrumento e

campo de atuação de políticos e negociação de votos. A favela passou a ter visibilidade no cenário político e cultural da época.

Segundo Valladares (1978,p.26), “as favelas constituíram um campo fértil

para a demagogia política. (...) os políticos tornaram-se verdadeiros intermediá-

rios entre a população local e o ‘mundo de fora’, de onde provinham os recursos e os serviços”.

Anos 1950 e início dos anos 60

Expansão descontrolada das favelas sob a égide do populismo

A década de 1950 foi fundamental para o desenvolvimento das favelas. Em

primeiro lugar, pela explosão demográfica que se produziu em toda a América

Latina. A evolução demográfica do Brasil observada no período de 1950 a 1980

foi espetacular; a população do país passou, em 30 anos, do predomínio rural

(pelo recenseamento de 1950, 64% da população ainda morava no campo) ao

predomínio urbano (pelo recenseamento de 1980, 68% da população já morava

nas cidades). O crescimento urbano, daí resultante, foi explosivo – a população das cidades se multiplicou por 4,2 entre esses dois marcos de tempo – principalmente por meio do crescimento das favelas, dos loteamentos periféricos sem

qualquer infraestrutura e da expansão dos cortiços, conferindo ao fenômeno da

pobreza urbana uma amplitude sem precedentes. Em 1955, novamente a Igreja

Microsseguros na favela da rocinha

38

católica tentou atuar nas favelas por meio da Cruzada São Sebastião, liderada por dom Helder Câmara, em um projeto de urbanização. Procurou, portanto, assumir

o papel de intermediária entre as favelas e o poder público.

Por outro lado, o Estado instituiu o Serviço Especial de Recuperação de

Habitações Anti-Higiênicas (SERFHA), primeiro órgão oficial voltado para a

urbanização das favelas, atuando como mediador na relação do Estado com os

moradores de favelas. Assim como no período do Estado Novo, por trás do papel

de mediador, estava a ideia de controle da população e cooptação das lideranças das favelas. Ainda na década de 1960, com o esvaziamento do SERFHA, foi criada, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), a Companhia de

Habitação Popular (COHAB) com a missão de desenvolver uma nova política habi-

tacional, baseada na construção de unidades para famílias de baixa renda.

Meados dos anos 1960 até o final dos anos 70

Eliminação das favelas e sua remoção dentro da política habitacional feita pelo BNH (Banco Nacional de habitação) durante o regime militar

O período de 1960 a 1980 foi de muitas incertezas para os moradores das

favelas na cidade do Rio de Janeiro. Em 1963, a população favelada se organizou na Federação das Associações de Favelas do Estado da Guanabara (Fafeg). Com

o golpe militar em 1964, porém, houve uma mudança na política habitacional

adotada pelo governo federal que investiu em um programa maciço de construções habitacionais. Em agosto de 1964 foi criado o Banco Nacional de Habitação, órgão financiador e responsável por programas habitacionais. O banco ganhou força

quando passou a ser financiado por recursos do Fundo de Garantia por Tempo de

Serviço (FGTS), a partir de 1967. Entretanto, em vez de sanar a questão de falta de moradias, a nova política habitacional resultou em um aumento da favelização..

Microsseguros na favela da rocinha

39

Com Negrão De Lima (governador da Guanabara entre 1965 e 1970) no “governo,

a tendência era retomar a trilha deixada pelo SERFHA, criado durante sua passagem pela prefeitura, em 1956, fazendo supor que a via urbanizadora das favelas voltaria a ser privilegiada e que, no lugar do controle duro e direto, tentar-se-ia estabelecer a estratégia de cooptação. De fato, a princípio, a COHAB foi deixada de lado, atribuindo-se maior ênfase ao trabalho da Fundação Leão XIII junto às associações de moradores.

No entanto, distante da pedagogia cristã dos anos 50, baseada na percepção de

habitantes de favelas como ‘irmãos cristãos’, agora, a Leão XIII pautaria sua ação por uma leitura que via a favela como o lugar do vício e da promiscuidade, ‘refúgio de criminosos’. Diante dessa reelaboração da identidade do favelado, nem mesmo a lógica de negociação baseada na cooptação de lideranças, experimentada no início dos anos 1960 pelo SERFHA, poderia ser implantada; afinal, ela fora desenvolvida tendo em vista uma outra identidade do favelado, aquela que vinha sendo politicamente construída e que, inclusive, dera lugar a uma identidade federativa, a Fafeg. A polarização entre o mundo da ordem e o lugar da desordem devolve a representação da favela aos termos da década de 1940, da favela como o habitat de indivíduos pré-civilizados; e, por isso, não cabendo mais o diálogo com suas “identidades políticas: a discussão sobre o que fazer com as favelas torna-se impermeável à participação de seus moradores.”23

Uma das metas da política habitacional desse período era a erradicação das

favelas e a transferência dos moradores para a periferia, longe do local de trabalho e carente de infraestrutura. Porém, esse plano enfrentaria uma forte reação de seus moradores na cidade. Organizados politicamente e representados por uma Fafeg que congregava cerca de 100 associações de moradores, os habitantes das favelas lutariam de forma desesperada para não serem removidos, entrincheirados na identidade politicamente construída de favelado.

A história dessas remoções, ocorridas sobretudo entre 1968 e 1975, representa

um dos capítulos mais violentos da longa história de repressão e exclusão do estado brasileiro.24 (Zaluar e Alvito).

23 Zuluar e Alvito, 34

24 Ibid

Microsseguros na favela da rocinha

40

De 1968 até 1975, pelo menos 50 mil famílias carentes foram obrigadas a

deixar suas casas. O governo militar justificava a retirada das favelas, principalmente as localizadas na zonal sul da cidade, com razões estéticas, mas, na verdade, o objetivo evidente era a liberação de lotes para usos mais lucrativos, como edifícios de luxo.

Anos 1980

Início de um processo de transição (da política pública habitacional)

de remoção para urbanização das favelas, fim do BNH (em 1986); pe-

ríodo de redemocratização do país

Anos 1990

No Rio de Janeiro, consolidação da ideia de urbanização das favelas,

como o Programa Favela-Bairro; período que marca o início do pro-

grama brasileiro de estabilização econômica com o Plano Real (em

1994).

Nos anos 1980, ocorreu uma nova onda de expansão de ocupação urbana

informais. Com o início da redemocratização, durante os anos de 1980, o Rio de

Janeiro observou a implementação de políticas sociais clientelistas e uma negação a prática de remoções. A prática clientelista foi adotada pelo governo de Leonel Brizola, em especial no primeiro mandato de 1983 a 1987, e representou também

uma nova forma de se lidar com as favelas. A proposta de Brizola era transformar as favelas em bairros populares. Ele desenvolveu então projetos que visavam a

implantação de infraestrutura (rede de água, saneamento e coleta de lixo). Além disso, o programa mais importante do governo Brizola era denominado “Cada

Família um lote”, que visava à regularização fundiária das moradias nas favelas (BURGOS, 2004, p. 42).

No decorrer do governo Brizola os investimentos feitos pelo moradores das

favelas em suas casas fez com que muitas deixassem de ser simples barracões de

madeira e passaram a ser de alvenaria. A regularização dos imóveis das favelas da zona sul pôs fim ao fantasma da remoção.

Microsseguros na favela da rocinha

41

Contudo, novas ações do poder público ganhariam expressão na década

de 1990. Em 1992, o então prefeito Marcelo Alencar consolidou a ideia de um

programa global de integração das favelas à cidade. Foi o chamado Plano Diretor da Cidade, sancionado aquele ano. O PD definiu o problema favela como uma

questão municipal, fundamental para o futuro da cidade. Foi pelo ângulo da

política de segurança que o problema favela voltou à cena

A ideia era que a instituição de um planejamento permanente a partir

dos Planos Diretores de Bairro, invertesse o fluxo hierárquico frequentemente

estruturado para funcionar de cima para baixo, criando mais dinamismo no

sistema de gestão, além de maior garantia do controle social sobre a aplicabi-

lidade do plano. O universo particular de cada bairro foi discutido e debatido

nas assembleias criadas para a elaboração do plano . Com isso, foi possível

pensar um sistema de planejamento e gestão acoplado ao orçamento parti-

cipativo, cujas demandas traçadas não só a curto prazo, fariam parte de uma

agenda maior de investimentos. O plano previa que a problemática de um

bairro não se esgotasse nele mesmo, mas fosse constantemente confrontada

com as de outros bairros, na perspectiva da construção coletiva da cidade para

todos. A definição dos Planos Diretores de Bairro, no entanto, não poderia se

resumir em mais uma simples forma eficaz e democrática de gestão. Deveria

ser um instrumento propício ao desenvolvimento de iniciativas que partiriam

da sociedade civil para fortalecer processos de real implementação do Plano

Diretor, garantindo que fosse um espaço de construção participativa, controle

social e monitoramento constante da sua aplicação.

A representação da favela inscrita no PD e os princípios democráticos

nele consagrados iriam nortear a política habitacional proposta pelo Grupo

Executivo De Assentamentos Populares – GEAP – criado pelo prefeito Cesar

Maia, em 1993. O GEAP propôs seis programas habitacionais e um deles foi o

Favela-Bairro, projeto de urbanização das favelas com alto investimento público e internacional, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).. Segundo

Microsseguros na favela da rocinha

42

a definição proposta pelo GEAP, o Favela-Bairro teria por objetivo: “construir ou complementar a estrutura urbana principal (saneamento e democratização de

acessos) e oferecer as condições ambientais de leitura da favela como bairro da cidade” . Seus pressupostos deveriam ser o” aproveitamento do esforço coletivo já desprendido” (prevendo, portanto, um reassentamento mínimo); a “adesão dos moradores”; e a “introdução de valores urbanísticos da cidade formal como signo da sua identificação como bairro”. O programa visava a implementação de melhorias na infraestrutura urbana promovendo a integração com o meio

social, transformando a favela em bairro. Portanto, nota-se que o Favela-Bai-

rro teve por princípio intervir o mínimo possível nos domicílios, definindo-se

como um programa eminentemente voltado para a recuperação das áreas e

equipamentos públicos.[10] Até o ano 2000, o GEAP beneficiou 54 favelas e oito

loteamentos irregulares, segundo dados do Instituto Pereira Passos.

Anos mais tarde, em 2007, os recursos e os objetivos do Programa de

Aceleração do Crescimento (PAC) na Rocinha, proposto pelo governo federal,

foram herdeiros dessa política.

2010

A Prefeitura do Rio lança o Programa “Morar Carioca”25, dentro do

chamado Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precá-

rios Informais.

O programa Morar Carioca prevê a urbanização das favelas do Rio de

Janeiro até 2020, promovendo o controle da ocupação do solo urbano. De

acordo com a prefeitura, o Morar Carioca é um compromisso internacional que

faz parte do Plano de Legado Urbano da Olímpiada de 2016 e deverá beneficiar

260 mil moradias.

25 Fonte: Secretaria Municipal de Habitação – Prefeitura do Rio, Julho 2010.

Microsseguros na favela da rocinha

43

Para o prefeito Eduardo Paes (PMDB), durante o primeiro mandato, entre

2008 a 2012, o grande diferencial do programa era que “por ser um projeto de

urbanização que engloba a definição de parâmetros urbanísticos, controle de

expansão e uma conservação permanente do Município, o Morar Carioca vai

nos permitir começar a criar a cultura de que comunidade urbanizada faz parte

da cidade.”26

A nova metodologia de cadastramento e mapeamento das favelas

usada pelo projeto foi explicada pelo então secretário de Desenvolvimento do

Município e diretor do Instituto Pereira Passos (IPP), Felipe Góes: “Integração é a palavra chave deste plano. Ele vai integrar definitivamente todos os assentamentos precários, as comunidades carentes, à chamada cidade formal. Para

definirmos as políticas públicas adequadas para esse programa, tivemos que

reconhecer a existência dos complexos, ou seja, favelas que se encontram em

áreas contínuas e formam um tecido urbano único”.

A abrangência do programa, segundo a prefeitura, era digna de destaque,

pois iria executar ações em comunidades em todas as regiões do Rio e, por isso, beneficiaria a cidade como um todo, não apenas os moradores das áreas em

que iriam ocorrer as intervenções. O programa previa deixar sob a responsabi-

lidade da prefeitura do Rio a implantação dos serviços básicos de conservação

da infraestrutura e dos equipamentos sociais, como iluminação, pavimentação,

drenagem, limpeza; implantação de um sistema de controle do surgimento

e do crescimento irregular de favelas, sob fiscalização da Secretaria Especial

da Ordem Pública (Seop); o mapeamento anual das favelas, por meio de fotos

aéreas e satélites (antes a atualização era feita de quatro em quatro anos);

ampliação da Legislação Urbanística, pelo aumento do número de Postos de

Orientação Urbanística e Social (Pouso) de 30 para 130; e reassentamento das

famílias em áreas de risco.

26 http://www.rio.rj.gov.br/web/smh/exibeconteudo?article-id=988601

Microsseguros na favela da rocinha

44

Mudança de foco

Paralelamente a todas as propostas urbanísticas para as favelas no Rio de

Janeiro, a partir dos anos 1980 houve uma mudança de foco na representação das

favelas. Ao lado de um mercado imobiliário bastante ativo – tanto para venda, quanto para locação – desenvolveu-se também, em plena modernização, um enorme

mercado de serviços para responder às demandas cada vez mais diversificadas de

uma população consumidora de produtos ligados direta ou indiretamente à glo-

balização. Entre os produtos de consumo “modernos”, a droga é o que mais chama

a atenção, sobretudo pelas práticas violentas associadas a ela. Mas o mercado da droga está voltando principalmente para o exterior das favelas, e não se poderia reduzir a economia das favelas à economia das drogas. Inúmeras outras atividades econômicas que nelas se desenvolvem, talvez menos “espetaculares” para os meios de comunicação, são os motores e signos de importantes transformações em suas

estruturas socioeconômicas.27

A participação popular foi prioritária na agenda dos pesquisadores durante

os anos 1970 e 1980 no Brasil, mas a violência urbana passou ao primeiro plano nos anos 1990. “Essa representação, que se intensificou a partir dos anos 1990, permitiu imaginar que estaria ocorrendo um aumento da violência, capaz de criar uma

situação incontrolável para os poderes públicos. Acontecimentos como o massacre da Candelária, ocorrido na madrugada de 23 de julho de 1993, perto da igreja de mesmo nome no centro do Rio, em que oito pessoas, entre elas seis menores, foram mortos por policiais militares e da favela de Vigário Geral, em agosto do mesmo ano, quando 21 moradores foram mortos por um grupo de extermínio, levaram à denúncia da polícia por corrupção, tanto pelas ONGs nacionais, quanto por organismos inter-nacionais atuando a favor dos direitos humanos. Mais recentemente, a imprensa e outros meios de comunicação começaram a publicar informações sobre o envolvimento de policiais com a corrupção, os sequestros e o tráfico de drogas”.28

27 BURGOS, MARCELO BAUMANN (1998) – Dos parques proletários ao Favela-Bairro – as políticas públicas nas favelas do Rio de Janeiro In ZALUAR, ALBA e ALVITO, MARCOS Um século de favela, Rio de Janeiro, Editora Fundação Getúlio Vargas, p 25 - 60

28 Zuluar e Alvito, 142

Microsseguros na favela da rocinha

45

A violência produzida pelos braços armados do tráfico tem forçado um

debate mais amplo acerca do modelo de cidade que se quer para o Rio de Janeiro.

É necessário redefinir o problema favela. O repertório produzido ao longo da

história – a favela como um problema de saúde pública; como um quilombo

cultural ou como um cancro moral; representações correntes nos anos 1940 e 50

– parece não fazer mais sentido.

A Rocinha não é uma Comunidade

Pelas vielas, becos e travessas se espalham barracos, pequenas edificações,

o comércio da Rocinha e seus milhares de moradores que, com o passar dos anos,

viram a condição de “favelados” assumir um caráter depreciativo, associado a drogas, tráfico, sujeira. A favela como representação da pobreza é uma visão perpetuada pelas ações de agentes políticos e sociais. Assim, com o tempo, o termo comunidade passou a ser usado como uma maneira de amenizar esse estigma. A Rocinha é uma

comunidade e não uma favela, faz questão de frisar o morador.

A palavra comunidade vem do latim e está associada à ideia de comunhão,

compartilhamento. Por isso mesmo, foi largamente utilizada no sentido religioso pela cultura cristã. Mais recentemente, movimentos socialistas, sobretudo os

utópicos, utilizaram o termo para difundir ideais comunitários.

Para a antropóloga Patrícia Birman, “a noção de comunidade, baseada em

valores católicos, não precisa ser explicitamente religiosa, como, aliás, frequentemente não é: as referências à comunidade como lugar de realização da hierarquia e da complementaridade entre os diferentes se encontra ancorada num catolicismo

difuso que se confunde, em algumas circunstâncias, com o que seria próprio do

patrimônio nacional. Ela ganhou, para certas agências governamentais e não go-

vernamentais, um valor emblemático como lugar de realização de valores “tradi-

cionais”. A imagem que resulta dessa concepção identitária é positiva e fartamente acionada – tanto por moradores de favelas, quanto pela sociedade mais ampla – em momentos em que se quer valorizar os elos dos primeiros com a segunda.”29

29 BIRMAN, P. Favela é comunidade? In: Machado da Silva, L. A. (org), p.108

Microsseguros na favela da rocinha

46

A questão é saber se o termo comunidade é utilizado como forma de mudar

a representação do favelado ou é apenas uma outra maneira de reforçar esse

estigma ou dele obter algum tipo de vantagem. Em um dado momento desta

pesquisa, um dirigente da associação de moradores chegou a pedir dinheiro para

permitir filmar e fotografar a Rocinha – por ele mesmo denominada “comunidade

carente”.

A socióloga Lícia Valladares explica que: “o uso deste termo também

legitima o seu próprio estatuto como representante investido pela comunidade,

mas também oculta todas as diferenças e conflitos existentes entre os diversos

espaços ou entre os próprios habitantes. A noção de comunidade supõe uma

ideia de união – que nem sempre tem sido característica dessas associações e de seus territórios. E assim mascara a diversidade das situações sociais e a multiplicidade dos interesses presentes em uma estrutura frequentemente mais atomizada

do que comunitária”.30

Segundo a socióloga, as associações de moradores retomam a imagem de

comunidade carente para garantir ajuda do poder público para os moradores. Para ela, as associações de moradores têm papel de mediação, “quando reafirmam a

especificidade dos espaços por elas representados, querem sublinhar o estado

precário de seus habitantes quanto ao estatuto jurídico da ocupação do solo, e do equipamento urbano, além da cidadania”31.

Valladares sublinha que, muitas vezes, os próprios moradores reforçam as

práticas dos líderes comunitários na hora de defender seus interesses. “Prova disto é que estes investem por último na melhoria do aspecto exterior de suas moradias, prolongando a percepção dos espaços precários, ainda que o conforto do interior das casas tenha progredido de maneira considerável”.32

30 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.

31 Ibid,160

32 Ibid,

Microsseguros na favela da rocinha

47

Além do poder público, as organizações não governamentais (ONGs) que

atuam nas favelas mantém no imaginário coletivo a representação de comunidade

carente. Mais próximas aos “pobres” do que muitas outras instituições, pois

suas sedes ou filiais funcionam na própria favela, elas reafirmam o discurso das associações de moradores quanto à noção de “comunidade” e suas conotações de

união, solidariedade e coesão.

“Muitas vezes, essas organizações têm clientelas bem específicas –

mulheres, crianças, jovens, negros etc. – e domínios de ação particulares, mais sempre ressaltam uma visão mais global que insiste sobre os excluídos, as vítimas da violência, as mulheres chefes de família etc., como segmentos da pobreza. Um discurso globalizante que, opondo os “pobres” a todo o resto, só pode continuar produzindo a uniformidade”, explica Valladares.33

De acordo com a pesquisadora brasileira, o modelo do freerider pode ser utilizado para analisar a presença das relações hierárquicas na favela, pois salienta os interesses pessoais e as vantagens que podem ser obtidas de uma situação

determinada – o que contradiz uma ideia de comunidade, tão arraigada nas re-

presentações que se fazem do “mundo da pobreza”.

O conceito de freerider foi utilizado pelo economista e cientista social norte-americano Mancur Olson em seu livro A lógica da ação coletiva para explicar o comportamento de indivíduos que: “[...] não têm nenhum interesse comum

no que toca a pagar o custo desse benefício coletivo. Cada membro preferiria

que os outros pagassem todo o custo sozinhos, e por via de regra desfrutariam

de qualquer vantagem provida quer tivessem ou não arcado com uma parte do

custo .34”

33 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.

34 Olson, Mancur. 1999. A Lógica da Ação Coletiva: os benefícios públicos e uma teoria dos grupos sociais. São Paulo: EDUSP

Microsseguros na favela da rocinha

48

Segundo Olson, o freerider é aquele que desfruta do bem coletivo sem ter

pago nenhum custo para a sua obtenção e com isso impede que o grupo atinja

seus objetivos.

Valladares acredita que “a prática do jeitinho brasileiro” também contribuiu

para o desenvolvimento de mecanismos e meios formais e informais de obter

benefícios. E, numa transposição para o modelo brasileiro do conceito de freerider, a socióloga avalia ainda que: “se a participação dos favelados foi ativa e criativa, ela também se reconhece mais individual do que coletiva, cada um tentando captar

vantagens particulares, sugerindo ser a ideologia utilitária e a ética individualista mais fortes do que a orientação para agir coletivamente.”35

Como foi dito anteriormente, a presente pesquisa IMR não considera a favela

um todo homogêneo, constituído de gente pobre, uma “comunidade carente”,

mas sim um local de convivência e confluência das mais diversas expressões, ex-

periências, sonhos, mercados e expectativas. Por isso, para evitar o conceito de comunidade e sua representação ainda ligada a estereótipos, a presente pesquisa feita por IMR adotou uma outra linha analítica: a distinção comunidade/localidade.

Por que Localidade?

O antropólogo norte-americano Anthony Leeds (1925-1989) definiu a

questão das relações entre o poder local (na favela) e as instituições supralocais como importante elemento de sua problemática. Leeds veio ao Brasil duas vezes.

A primeira, na década de 50, para estudar a economia cacaueira na Bahia e, mais tarde, no fim dos anos 60, acompanhando um grupo da Organização dos Estados

Americanos (OEA) para pesquisar as favelas cariocas. Nesse período, o antropólogo analisou as remoções dos moradores feitas pelos programas habitacionais e suas conclusões diferiram da maior parte do pensamento antropológico da época, para

o qual o morar na favela estava relacionado com impossibilidade de ocupar outros 35 VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da Favela. Do mito de origem à favela.com. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008.

Microsseguros na favela da rocinha

49

espaços urbanos. Para Leeds, as favelas tinham uma forma de organização complexa, mas ele discordava da existência de uma ‘cultura da favela’. Leeds criticou o conceito de comunidade como sinônimo de favela, que para ele era apenas um local de

moradia e sem a conotação de estigma social, defendendo assim a heterogeneidade das favelas.

O historiador e antropólogo carioca Marcos Alvito em Um século de favela expõe o pensamento de Leeds. Segundo Alvito, para Leeds os chamados estudos

de comunidade utilizavam os mesmos métodos dos estudos de tribos, de outras

realidades distintas.

“Criticando o uso difundido da noção de comunidade, propôs substituir esta

noção pela de ‘localidade’. Segundo ele, “o uso do termo ‘localidade’ não nos obriga a postular uma noção mínima ou máxima de organização como a ‘comunidade’ (...) nem a discutir seu status ontológico (...). Não nos obriga a supor que a localidade em que vivemos seja também uma comunidade. Geralmente ela não o é (...). As localidades como pontos nodais de interação, caracterizam-se por uma rede altamente

complexa de diversos tipos de relações. Os laços de parentesco da família nuclear e, frequentemente, aqueles com parentes próximos, serão amplamente encontrados

nas localidades, especialmente nas pequenas. As amizades mais próximas também

tendem a existir na localidade. Os vizinhos existem, por definição, na localidade. O

que contribui para caracterizar uma localidade é o fato de ela permitir apenas a identificação do local de moradia dos indivíduos; o fato de residir em uma localidade não significa necessariamente seu pertencimento a uma comunidade local (...). Essa concepção é apoiada por uma visão da sociedade urbana como sistema complexo,

não sendo possível compreender um elemento isoladamente sem considerar suas

relações com os demais.” 36

O relevante desse conceito é que ele se liga à noção de Nodo e Microcentro

Comercial Composto (MCC) – conceito desenvolvido por IMR em suas análises das

dinâmicas socioeconômicas em espaços urbanos onde há informalidade, como será

visto mais à frente: “A característica fundamental das localidades seria o fato de constituírem ‘pontos nodais de inteiração (ou interação?), onde há uma rede altamente 36 Zaluar, Alba e Alvito, Marcos. Um século de favela. Rio de Janeiro: FGV Editora. 2006

Microsseguros na favela da rocinha

50

complexa de diversos tipos de relações’. Estas seriam, sobretudo, laços de parentesco bastante próximos, amizades mais significativas, parentesco ritual e vizinhança. Em suma... localidades são, na verdade, segmentos altamente organizados da população total”.37

Ao conceito de localidade pode-se somar a contribuição do antropólogo

francês Marc Auge com a sua definição dos espaços de interação do tipo lugar/não lugar – sendo o lugar um espaço similar à localidade de Leeds, mas com o elemento de reconhecimento pessoal, com a identificação da singularidade do outro e

o não-lugar, o oposto, ou seja, os espaços públicos de rápida circulação, como aeroportos, estações de trem e metrô.

O conceito de MCC das pesquisas IMR localiza esses espaços em sua maioria

informais de atividade econômica em “lugares”, ou espaços de interação nos quais o relacionamento é pessoal; a localidade será uma classe de “lugar”, “um espaço caracterizado por coisas tais como um agregado de pessoas mais ou menos permanente

ou um agregado de casas, geralmente incluindo e cercadas por espaços relativamen-te vazios, embora não necessariamente sem utilização”.38

Por sua vez, um Nodo Comercial está mais próximo ao conceito de não-lugar de Augé. Nele os relacionamentos são transitórios, impessoais e altamente funcionais.

Augé dá como exemplo de não-lugar o metrô de Paris, pelo qual milhões de pessoas circulam, sem um reconhecimento à sua condição individual. Tanto nos Nodos

Comerciais, quanto nos não-lugares; não existe a “circulação” além da obrigatória. E

isso pode ser constatado na Rocinha, mais especificamente na Estrada da Gávea.

Marcos Alvito, ao estudar a favela de Acari, na zona norte do Rio de Janeiro,

notou processo semelhante. “O que eu entendo por circulação, naturalmente, exclui trajetos obrigatórios, como a ida ao trabalho, ao mercado ou à escola. Notei que eu encontrava sempre as mesmas pessoas nos mesmos locais. Depois de um certo

tempo, eu já conhecia alguns grupos de mulheres, sempre a conversar, sempre

próximas às suas casas, às vezes sentadas nas soleiras das portas. Quanto aos homens, 37 Ibid

38 Ibid

Microsseguros na favela da rocinha

51

cada birosca tem um bom número de frequentadores “fixos”, a imensa maioria deles, vizinhos muito próximos. Na maior parte do tempo, nada consomem: a “barraca”,

como eles chamam, é apenas um ponto de encontro.”39

As microáreas

Para efeito do estudo realizado com o propósito de entender um espaço his-

toricamente marginalizado da cidade formal – e que foi em sua grande maioria autoconstruído – é possível recorrer ao conceito de microárea, exposto pelo antropólogo Marcos Alvito em sua já referida análise sobre a favela de Acari no livro Um século de favela. Segundo Alvito, as microáreas seriam pedacinhos da favela e serviriam como suporte para representações acerca das diferenças existentes no interior de uma única favela. O antropólogo descreve as várias microáreas de Acari: “há microáreas vistas como mais pobres... onde ainda predominam barracos de madeira improvisados. Uma divisão básica pode ser feita entre microáreas “mais pra fora” e “mais pra dentro” da favela. As regiões interiores, mais longe “do asfalto”, são menos valorizadas”.40

Para o pesquisador, cada pedacinho de favela forma uma rede de relações que

tem como ponto de partida a vizinhança.

“A microárea é aquele espaço intermediário entre o privado (casa) e o público,

em que se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que as relações formais e indivi-dualizadas impostas pela sociedade.”41

Assim, seria nos pedacinhos da favela que se desenvolveriam o dia a dia da

vizinhança imediata, os intercâmbios e relacionamentos pessoais. Nas microáreas, os laços de amizade e vizinhança, já enormemente ativos, seriam reforçados por laços de parentesco, incluído o parentesco ritual estabelecido pela existência de “comadres” e

“compadres”.

Apesar da favela ser um espaço heterogêneo, no qual convivem diferentes

39 Ibid, 193

40 Ibid, 187

41 Ibid

Microsseguros na favela da rocinha

52

agentes econômicos, cada microárea parece, no entanto, exigir dos seus moradores um comportamento igualitário, em que a generosidade excessiva, bem como a avareza, estariam deslocadas num ambiente marcado pela horizontalidade das relações sociais.

“O título para aqueles que sabem estabelecer esse relacionamento de forma

equilibrada é parceiro, entre os homens, e comadre, entre as mulheres; mesmo que não haja entre elas parentesco ritual propriamente dito”.42

Outra característica desses pedacinhos de favela é que o limite no relaciona-

mento entre gêneros é bastante restrito e definido.

“Principalmente no caso das mulheres casadas, a rede de reciprocidade que

lhes é permitido construir é bem mais restrita e normalmente assenta-se na própria organização familiar: cunhadas e sobrinhas, preferentemente sob a supervisão vigilante da sogra. No máximo, pode incorporar-se a esse círculo uma vizinha muito próxima, da casa ao lado ou em frente. O locus de tais relações femininas de reciprocidade é o espaço doméstico ou a fronteira do mesmo (“as portas”). A exceção fica por conta de atividades externas justificadas pela dinâmica da “casa” e da família, como fazer compras no supermercado, levar as crianças à escola ou então ir à igreja (normalmente, em grupos compostos de outras mulheres ou acompanhadas dos filhos).43

Alvito assinala que os homens, ao contrário, raramente se visitam, mas por outro lado, os espaços em que se reúnem são vedados às mulheres.

Conhecer uma favela é, portanto, entrar em um mundo de diversidade

esmagadora; cada pedacinho trazendo as marcas que a maioria dos moradores foi

guardando e acumulando ao longo de muitos anos. As microáreas são o locus de uma memória que tanto pode ser trágica (“bem nesse lugar aqui ela foi assassinada por seu namorado”), quanto alegre, “e referir-se às travessuras conjuntas, às inúmeras brigas entre eles, das quais se riem muito hoje. É um espaço com as marcas das relações familiares, dos entes queridos – hoje ausentes”.

42 Ibid

43 Ibid, 194

Microsseguros na favela da rocinha

53

2. Rocinha, uma favela em transformação

Na madrugada de 13 de novembro de 2011, equipes de policiais deram início

à ocupação da favela da Rocinha para a instalação de uma “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP), projeto da Secretaria Estadual de Segurança Pública da cidade do Rio de Janeiro para instituir formalmente a presença do Estado em áreas antes dominadas e controladas pelo narcotráfico. O projeto de pacificação das favelas cariocas foi inspirado na experiência da cidade de Medelín na Colômbia. A primeira UPP foi instalada em 2008 no Morro Santa Marta, localizado no bairro de Botafogo, zona sul da cidade. Um total de trinta e quatro unidades foram implantadas desde então, incluindo a unidade da Rocinha. Cada UPP tem sede própria e uma força

policial ligada a um Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Os moradores acompanharam toda a ação policial que reuniu cerca de

três mil homens, seis veículos blindados da Polícia Militar, além de blindados da Marinha do Brasil e helicópteros. A chamada “Operação Choque da Paz” havia

sido planejada há meses pelas forças de segurança do Estado. Os traficantes que controlavam a Rocinha tentaram impedir a ação policial fazendo barricadas com

lixo e entulhos, além de espalhar óleo na pista. Porém, nada impediu a chegada

das tropas ao alto do morro e a retomada do território que transcorreu de forma mais tranquila do que os moradores imaginavam. Nenhum tiro foi disparado

durante toda a operação.

Considerada a maior favela do Brasil, a Rocinha se encontra assentada na

encosta do morro Dois Irmãos que separa os bairros São Conrado e Gávea, ambos

localizados na zona sul do Rio de Janeiro, área com a população de maior poder

aquisitivo da cidade.

Em 1985 foi criada a XXVII Região Administrativa municipal para tratar espe-

cificamente de tal favela devido à sua expressiva densidade demográfica e com-

plexidade territorial. O Decreto nº 6.011 de 1986 concedeu o status de “bairro”

à região – status que seria posteriormente confirmado pela Lei nº 1.995 de

Microsseguros na favela da rocinha

54

1993, a qual definiu os limite físicos da Rocinha. Apesar das iniciativas oficiais de promover a urbanização e formalização de um espaço historicamente marginalizado e excluído de qualquer projeto urbanístico, a população da cidade formal –

chamada de “asfalto” pelos moradores dos morros cariocas – e muitos dos próprios moradores da Rocinha ainda a reconhecem como uma favela perigosa.

A transição de favela a “bairro” é um processo que sofre com a falta de

integração e ordem entre as estâncias dos poderes municipais, estaduais e federais.

Decorridos vinte anos da lei municipal que transformou a favela em bairro, muitas das ações previstas pelo legislativo não saíram do papel – principalmente no que diz respeito à regularização fundiária e urbanística. Retratar a Rocinha se torna, assim, uma questão complexa.

Diversos estudos com variadas metodologias e conceitos realizados por

distintos órgãos de âmbitos municipais, estaduais e federais encontram uma

dimensão diferente para a favela-bairro. De acordo com o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Rocinha tem 69,3 mil moradores em uma área de 864.052 metros quadrados. Dados do Censo Domiciliar, da Secretaria

de Estado da Casa Civil, realizado entre os anos de 2008 e 2009 com o objetivo

de instituir na Rocinha ações do Programa federal de Aceleração do Crescimento

(PAC), estimou a população em 98.319 pessoas. Tal estimativa utilizou como base um número de entrevistados de 73.410 indivíduos distribuídos em 38.140 imóveis

identificados com média de 2,9 moradores por domicílio. Contudo, há ainda quem

calcule em mais de 100 mil pessoas a população residente da Rocinha.

Parte das discrepâncias quanto ao tamanho da Rocinha é oriunda do

crescimento desordenado dos grandes centros urbanos e do atraso em mapeá-lo.

O IBGE, por exemplo, passou a denominar as favelas de “aglomerados subnormais”

a partir do Censo de 1991, repetindo a terminologia nos dois censos subsequen-

tes, de 2000 e 2010. A partir deste último, e devido a avanços tecnológicos (como o uso de imagens de satélite e GPS) e inovações em sua metodologia de pesquisa, o IBGE passou a definir com mais nitidez o conceito e as características dos

Microsseguros na favela da rocinha

55

“aglomerados subnormais”. É possível e provável que algumas áreas da Rocinha

que já foram urbanizadas e formalizadas não entrem na análise daquilo que o

IBGE classifica como “aglomerado subnormal”, ou seja, “todo conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais (casas, barracos, palafitas, etc.) carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais (abastecimento de água, disponi-bilidade de energia elétrica, destino do lixo e esgotamento sanitário) ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública

ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e densa”. Os próprios pesquisadores do IBGE afirmaram, na ocasião da divulgação dos dados

censitários, que os números de moradores de favelas divulgados por Estados ou

municípios podiam ser destoantes daqueles do Censo. A falta de um critério bem

definido de análise dificulta a captura do retrato preciso de um espaço que se

torna cada vez mais heterogêneo e complexo.

Com a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, o governo estadual

pôde retomar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O

chamado PAC 1 concentrou os recursos em alguns pontos da Rocinha como na

urbanização da chamada Rua 4. Já a nova fase de investimentos, o PAC 2, anunciada em 2013, tem como objetivo resolver alguns gargalos de infraestrutura do espaço.

A expectativa com tais ações do Estado é a de que a mudança gradual de favela a bairro vire, enfim, uma realidade.

Não é possível entender o que hoje é a Rocinha sem antes compreender

como ela surgiu e se desenvolveu através do tempo. A área pela qual atualmente

se espalham milhares de casas e edificações já foi um dia uma densa floresta

remanescente da Mata Atlântica, encravada no morro Dois Irmãos e cortada pela

Estrada da Gávea, um acesso precário às terras de propriedade do comendador e

engenheiro Conrado Niemeyer. Em 1916, Niemeyer mandou erguer no local uma

pequena igreja em devoção a São Conrado, dando origem ao bairro de mesmo

nome.

A ocupação do território que corresponde à Rocinha data do final da

década de 1920. As terras pertenciam à fazenda Quebra-Cangalha, posterior-

Microsseguros na favela da rocinha

56

mente dividida em chácaras44. De propriedade da Companhia Portuguesa Castro

Guidão, as terras começaram a ser por esta vendidas entre 1927 e 1930 em lotes

de 200 metros quadrados. A companhia que pertencia à família do visconde

Castro Guidão chegou a traçar a planta do local, demarcando as ruas 1, 2, 3 e 4

que existem até os dias atuais. As obras da casa número 1 da Estrada da Gávea

teriam sido embargadas pelo prefeito Pedro Ernesto em 1932 e os moradores

acusados de apropriação ilegal do terreno. Em 1935, iniciou-se a instalação de

eletricidade na Estrada da Gávea, o que facilitou ainda mais a venda dos terrenos.

Dois anos depois, o loteamento sofreu novo embargo da prefeitura municipal por

não cumprir as exigências legais de parcelamento do solo. Com apenas 80 lotes

vendidos, os negócios foram interrompidos. Não dispondo de recursos financeiros para a legalização dos terrenos, a Companhia abriu falência. Os moradores, por

sua vez, permaneceram no local mesmo sem a escritura definitiva dos lotes que já haviam comprado. O asfaltamento e a iluminação da Estrada da Gávea, em 1938,

acelerou a ocupação dos demais lotes do terreno. Consideradas sem dono ou

do governo, as terras foram rapidamente tomadas, surgindo assim os primeiros

barracos de madeira na região.

Os primeiros habitantes dessa área foram pequenos comerciantes

portugueses e operários de fábricas situadas no Jardim Botânico e na Gávea,

bairros vizinhos nos quais estavam situadas diversas fábricas de tecido.

Um dos mitos da Rocinha está relacionado à origem de seu nome. Contam

os antigos moradores que os primeiros ocupantes da área plantavam legumes e

verduras em seus terrenos e os vendiam nas feiras da zona sul. Quando os fregueses perguntavam de onde traziam os produtos, os comerciantes respondiam que era

da “rocinha” 45.

Outros relatos indicam que “esse nome se deve ao fato de uma espanhola, ali

residente, que tinha uma plantação de legumes e verduras, costumava mostrá-la

aos seus visitantes, convidando-os para ver a sua “rocinha”. Uma outra versão

44 Revista AM, 4ª edição de março de 2010.

45 A palavra Rocinha remete a um pequeno vilarejo rural, também chamado de “roça”.

Microsseguros na favela da rocinha

57

encontrada num blog da própria comunidade, recolhida de relatos populares,

“atribui o nome a uma moradora de pele muito alva e cabelos claros chamada

de russinha”. Muito conhecida na região, ela teria servido de referência para as pessoas que passaram a conhecer o local como “lugar em que morava a Russinha”46

Os relatos de moradores são contraditórios quando tratam do início da

ocupação. Gerônimo Leitão (2009)47 cita passagens do livro “Varal de lembranças”, organizado pela Associação Pró-Melhoramentos da Rocinha (APMR), em que fica

evidente a contradição. Alguns relatam que o início da ocupação teria ocorrido

da parte mais alta da estrada da Gávea para baixo, outros dizem o contrário. A hipótese mais provável é a de que a ocupação deu-se gradualmente do sopé do

morro para cima. Em muitas outras favelas, a ocupação costuma se dar de cima

para baixo, já que na parte de cima as invasões ficam menos evidentes. Contudo, a hipótese da ocupação ter começado na base no morro é reforçada pelo histórico do loteamento que demonstra que os primeiros terrenos ocupados estavam

situados na parte baixa do morro. Os demais acompanharam a subida da Estrada

da Gávea. Há, inclusive, uma área da comunidade conhecida como “Faz Depressa”,

situada em uma parte relativamente elevada da Estrada da Gávea, e que recebeu

este nome por causa da perseguição sofrida pelos novos ocupantes da área.

Nesse período, a fiscalização era intensa e os novos barracos eram frequentemen-te derrubados. O depoimento é de Ismael Elias, morador desde 1959, e relatado

no livro “Varal de Lembranças48”:

“A parte da Rocinha que tinha o maior número de ocupação era chamada

Campo da Esperança, Largo do Boiadeiro. Essa periferia tinha pouca gente

morando.... o largo da Rua 1, Faz Depressa, tem esse nome porque naquele tempo

o morador que fazia o barraco era muito perseguido pela polícia. Naquele faz,

46 SOARES, Priscila, OLIVEIRA, Fábio Bruno de, SAMPAIO, Milena. Rocinha, uma breve história no tempo – análise dos processos de formação e transformação do bairro. XIII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. Florianópolis, 2009.

47 LEITÃO, Gerônimo. Dos Barracos de Madeira aos prédios de quitinetes. Rio de Janeiro: EdUFF. 2009.

48 Este livro foi publicado em 1983, a partir de uma iniciativa da Associação Pró-Melhoramentos da Rocinha e não teve reedições. Por esta razão, são poucos os exemplares existentes.

Microsseguros na favela da rocinha

58

não faz, pode, não pode, de uma hora para outra surgia um barraco, e daí o

nome Faz Depressa. Depois chegava a polícia e pronto, já estava morando no

barraco”.

Na década de 1940, boa parte dos novos moradores vinha de outros

estados ou de áreas mais afastadas da cidade. A crise da cafeicultura no Estado de São Paulo gerou um fluxo intenso de migrantes para o estado vizinho do

Rio de Janeiro e, concomitantemente, a seca na região Nordeste do país levou

a um movimento ainda maior de migração.

Tal processo de êxodo rural intensificou-se no Brasil no decorrer das

décadas de 1950 e 1960 e atingiu principalmente as áreas urbanas da região

Sudeste. O desenvolvimento industrial impulsado ainda no governo de

Getúlio Vargas (1951-1954) e que marcou a gestão de Juscelino Kubitschek

(1956-1961) atraiu brasileiros das zonas rurais em busca de emprego e melhor

qualidade de vida nas cidades. Contudo, muitos chegavam sem qualificação

profissional para disputar uma colocação na indústria e a infraestrutura

precária das áreas urbanas não conseguiu absorver o grande contingente de

migrantes desempregados. O resultado foi o crescimento desordenado e o

aumento das favelas.

Muitos migrantes no Rio de Janeiro se instalaram na periferia da cidade

ou na Baixada Fluminense. A distância dos locais de trabalho interferia na

qualidade de vida dessa população. A Rocinha, localizada em plena zona sul,

área próxima ao centro da cidade e de residência de uma população de alto

poder aquisitivo e que demandava mão-de-obra era uma alternativa das mais

convenientes. As famílias nordestinas eram numerosas, compostas por quatro

a dez filhos, em faixas etárias que variavam de 7 a 10 anos de idade. Muitas

crianças de tais famílias já trabalhavam originalmente na lavoura, ajudando

na formação da renda familiar nas roças de subsistência. A precariedade

da vida nos centros urbanos vinha a ser uma alternativa melhor do que a

permanência nas áreas rurais sendo afetadas pela seca.

Microsseguros na favela da rocinha

59

O processo de ocupação da Rocinha está intimamente associado ao intenso

êxodo rural ocorrido no Brasil na segunda metade do século XX. Nesse período,

a favela recebeu cearenses, pernambucanos, alagoanos, gente de todas as partes

do Nordeste. Aos poucos, a origem comum dos moradores ajudou a criar laços

de identidade. Eles encontravam na Rocinha um “porto seguro”, uma rede de so-

lidariedade que ia desde orientações sobre a vida na cidade até a inserção no

mercado de trabalho.

Um novo surto expansionista foi registrado na Rocinha na década de 1970,

quando a população passou de pouco mais de quatro para quase mil habitantes

(Segala, 1991:110)49. Também fruto de um processo de desenvolvimento sem pla-

nejamento público, o crescimento verificado nesse período foi motivado, princi-

palmente, pela abertura dos túneis Rebouças, inaugurado em 1967, e Dois Irmãos

(hoje chamado de Túnel Zuzu Angel), em 1971. Eles facilitaram o acesso da mão

de obra instalada na Rocinha às obras que, na época, atendiam principalmente ao

“boom” imobiliário dos bairros de Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico na

zona sul da cidade. Atraídos pelas oportunidades na construção civil, milhares de nordestinos se fixaram na favela da Rocinha.

O crescimento populacional da favela nesse período agravou os problemas

de infraestrutura do local. Faltavam água, luz, saneamento básico e limpeza

urbana. Além disso, o preconceito em relação aos moradores do morro ficou mais

evidente e o habitante da Rocinha ganhou o estigma de marginal. Ser favelado

passou a ser sinônimo de delinquente.

A história da Rocinha mostra também algumas remoções e momentos de

grande resistência dos moradores. Há registro de três remoções parciais e uma

realocação por ocasião de um programa de reurbanização. A primeira remoção se

deu por ocasião da construção da autoestrada Lagoa-Barra; a segunda, em 1971,

transferiu moradores do Laboriaux, um dos pontos mais altos da favela, para um

conjunto habitacional situado no subúrbio da cidade. A iniciativa não deu certo e 49 Segala, Lygia. O riscado do balão japonês. Trabalho comunitário na Rocinha 1977-1982, Rio de Janeiro, Dissertação de mestrado do PPGAF/UFRJ. 1991.

Microsseguros na favela da rocinha

60

as famílias acabaram voltando para a Rocinha. A terceira remoção ocorreu em 1975.

Quarenta famílias foram removidas também do Laboriaux. Na década de 1980, a

Rocinha passou por um programa de reurbanização de favelas que removeu casas

construídas na área chamada de valão. Já na década de 1990 a Rocinha ganhou

status de bairro sem, contudo, ter sanado os velhos problemas. Frente à ameaça

de remoções, os moradores usavam crianças e até famílias inteiras como uma

espécie de “escudo humano” para evitar a ação. Em caso de falta de água, impro-

visavam bicas de nascentes. Na falta de energia elétrica, puxavam um “biquinho”

de luz da Estrada da Gávea, o conhecido ‘gato’, e emprestavam a quem não tinha.

Na memória recente dos moradores estão os mutirões para a limpeza de

valas, a fundação de associações em defesa dos interesses dos moradores, os

abaixo-assinados, as reivindicações ao governo e até mesmo os mutirões para

cimentar os becos. Tudo isso dentro das normas políticas vigentes. Os moradores da Rocinha lutaram para se tornar parte do espaço integrado da cidade e hoje se orgulham de não somente ter resistido aos processos de remoção, mas também

crescido a ponto de poder dizer: “Somos a maior cidade cearense depois de

Fortaleza”. É para esta “cidade” que muitos conterrâneos ainda migram todos os

anos.

Urbanização, desenvolvimento econômico e correlação

As mudanças que vêm ocorrendo na Rocinha nos últimos anos são

importantes para entender a relação entre os processos de urbanização

promovidos pelo Estado e o desenvolvimento econômico local. Historicamente,

as intervenções urbanas chegavam na região como resultado de trocas eleitorais

ou por meio de barganhas com chefes do tráfico de drogas.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma parceria entre os

governos federal e estadual que tem investido na urbanização da Rocinha. Faz

parte de uma ação de Estado em localidades como a Rocinha, antes marginaliza-

das e que foram autoconstruídas e governadas até tempos recentes. Obras de pa-

Microsseguros na favela da rocinha

61

vimentação, saneamento, drenagens de valões e – sobretudo – de regularização

fundiária dos assentamentos informais fazem parte desse projeto de integração

social da Rocinha à cidade formal. Tanto o PAC 1, que teve início em 2008, como o PAC 2, que deveria ter começado em 2013, estão incluídos em um plano diretor

elaborado por arquitetos, engenheiros e técnicos da Secretaria de Obras do estado do Rio de Janeiro.

Para entender o que realmente mudou na dinâmica das relações sociais

dentro da Rocinha e entre seus moradores e o poder público é preciso lembrar

que ela, assim como grande parte das favelas do Rio de Janeiro, vivia até pouco tempo atrás sob o comando do tráfico de drogas instalado e consolidado no local há muitas décadas. Era para os chefes do tráfico que moradores e comerciantes

se reportavam ao reivindicar melhorias para a Rocinha. Relatos obtidos durante o período da pesquisa davam conta de que os moradores se mobilizavam e reivin-dicavam junto ao tráfico de drogas melhorias para as microáreas – geralmente,

regiões em que o Estado estava ausente. Assim, o tráfico não seria um “concorrente”

do Estado nas melhorias da Rocinha, mas atuava preenchendo as lacunas deixadas

por este.

A entrada do poder público por meio das ações do PAC começou a mudar

o cenário da Rocinha. A instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2011 e a tentativa de prender e intimidar a rede do tráfico ali presente fazem parte desse novo contexto. Contudo, durante o período de realização da pesquisa IMR (entre janeiro e junho de 2010), as obras do PAC eram feitas ainda sob o poder paralelo e vigente do tráfico de drogas.

Contrastando com esse cenário, observou-se no interior da Rocinha a

tradicional forma de organização de moradores em espaços informais: os mutirões.

Um exemplo de mutirão foi a mobilização para enfeitar as ruas para a Copa do

Mundo FIFA de 2010, organizada pelos moradores da Rua 3. As contribuições dos

moradores foram recolhidas e um grupo de homens, adolescentes e crianças se

responsabilizou pelo trabalho artístico de pintar e enfeitar a rua. Ainda que se Microsseguros na favela da rocinha

62

trate de uma mobilização para um evento específico, a hipótese traçada é a de

que existiria uma vida associativa “latente”, a qual poderia ser ativada a partir de um mecanismo de motivação comunitária.

Vários moradores estavam envolvidos no mutirão da Rua 3. Segundo

eles, tratava-se de um concurso promovido pela Associação de Moradores que

premiaria a rua mais bem enfeitada com vinte e cinco caixas de cerveja e carnes para churrasco. A participação e o entusiasmo dos moradores da Rua 3 não foi

seguida por seus comerciantes que tiveram que ser cobrados pelos organizado-

res.

A implementação da primeira fase do Programa de Aceleração do

Crescimento, o chamado PAC 1, intensificou a urbanização em locais de forte

trânsito de pessoas, áreas de muito potencial comercial. Contudo, novas vias de acesso também foram construídas, não somente em pontos com comércio desenvolvido, mas em estratégicos locais de passagem.

Em seu planejamento técnico, as obras do PAC podem não guardar

correlação direta com os Nodos e Microcentros Comerciais Compostos; porém,

o fato delas ampliarem vias de acesso existentes e abrirem novas fará com que

dentro de pouco tempo se possa analisar como as intervenções urbanísticas em

um espaço construído sem qualquer projeto de tal natureza irá transformar tais

espaços de trocas socioeconômicas dentro da Rocinha, em seu lento trajeto de

transição de favela a bairro.

O processo de urbanização da Rocinha, portanto, não está vinculado

apenas ao Estado, com o PAC, mas a muitos outros sistemas, como o econômico,

religioso, ou mesmo o simbólico. Existe também um processo de urbanização

espontâneo, produzido por fatores ecológicos, isto é, de adaptação ao meio, que surge como consequência do desenvolvimento da favela como espaço de moradia

fragmentado nos morros – o que exige a adaptação vertical. Tudo isso se observa na busca individual e coletiva de acesso a bens sociais, próprios do urbano, como Microsseguros na favela da rocinha

63

melhor moradia, acesso ao saneamento básico, água potável, ou inclusive

bens secundários, como TV a cabo ou internet, pois quanto mais distante do

centro, mais longe se fica do acesso a esses bens.

Uma das consequências diretas da urbanização é o desenvolvimen-

to econômico local, especialmente nas áreas sob ação direta do programa

do Estado. Com o progresso das obras isso se refletirá na composição dos

Nodos e nos Microcentros Comerciais Compostos presentes na Rocinha. Por

enquanto, o que se constata é o alto custo de entrega das mercadorias para

o comércio dos MCC’s devido à precariedade das vias de acesso.

Muitos desses MCC’s estão situados em locais acessíveis apenas por

meio de escadarias ou subidas muito íngremes, o que dificultava a distri-

buição das mercadorias. As características geográficas do terreno estabele-

ceria, assim, níveis de desigualdade socioeconômica na localidade. O “rico

da Rocinha” ocuparia uma área de fácil acesso, plenamente abastecida de

bens e serviços e beneficiada por programas de urbanização do governo. Já

o “pobre da Rocinha” seria encontrado em regiões de difícil acesso, expostas

ao risco de desastres ambientais, onde os bens e serviços são escassos e as

iniciativas públicas de melhorias urbanísticas igualmente difíceis de serem

implantadas.

Como consequência, há uma clara diferença no custo de vida nos limites

da Rocinha. O valor de bens e serviços seria menor em áreas beneficiadas por

processos de urbanização, áreas pavimentadas e de fácil acesso, nas quais

até mesmo as políticas públicas conseguem chegar com mais facilidade

por meio de serviços de saúde, transporte e crédito. Já nos pontos de difícil

acesso, o cenário é outro: nenhum tipo de melhoria urbana ou infraestrutura

básica, gerando um custo de vida maior. Observa-se a inversão dessa lógica

na questão da moradia: quanto maior o grau de urbanização, maior o valor

da habitação. Da mesma forma, quanto mais afastado do “asfalto”, menor o

preço da moradia.

Microsseguros na favela da rocinha

64

As zonas marginais ou mais afastadas da Rocinha são as regiões da Roupa

Suja, do Morro do Capado e do Macega. Essas áreas estão situadas justamente

no limite geográfico da localidade. São consideradas marginais, não pela

distância dos pontos centrais, mas pela falta de acesso às informações e opor-

tunidades encontradas nos centros comerciais, os Nodos, e pela falta de vias

de acesso carroçáveis. Muitas vezes é difícil chegar a esses locais até mesmo a pé.

No Morro do Capado há um grande déficit de infraestrutura, além de

habitações de menor padrão construtivo, casas sem telhas ou sem janelas. Essa

região não fica tão distante de um dos Nodos identificados, mas está situada

próxima ao limite geográfico da localidade, assim como o sub-bairro Macega,

declaradamente o mais pobre da Rocinha, em que há muito lixo, casas de

madeira e áreas de difícil acesso. Em ambos os casos é provável que a condição

econômica seja determinante para a falta de acesso ao centro comercial.

Por outro lado, um morador há quinze anos da Rocinha não considera

a população dessas áreas marginalizada. Ele é proprietário de um prédio de

quitinetes para aluguel e diz que na Rocinha “só não consegue serviço quem

não quer” e ao menos um membro de cada residência possui trabalho. A oferta

de serviços e “bicos” na Rocinha é muito grande, gerando trocas econômicas

informais difíceis de serem mensuradas. O morador conta que a presença de

barracos de madeira nas áreas citadas se deve ao alto custo do transporte

do material de construção para pontos de difícil acesso. Ele construiu seu

imóvel na área conhecida como Paula Brito, não muito distante de uma via

carroçável, e disse ter pago a quantia de R$ 50 (cinquenta Reais) – aproxima-

damente vinte dólares americanos em valores atualizados até o fechamento

desta edição, em janeiro de 2014 – para cada metro de areia transportada.

Em locais de mais difícil acesso esse preço chega a dobrar, avalia o morador.

Outras duas mulheres, também residentes na mesma área da Rocinha, dizem

que o preço do metro de areia pode chegar a R$ 80 (oitenta Reais) – ou trinta

e cinco dólares.

Microsseguros na favela da rocinha

65

O tamanho da Rocinha impressiona e surpreende a cada momento. Em reunião

de mulheres da área do Roupa Suja para o anúncio da instalação de uma Clínica da Família, da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do governo estadual dentro de

um programa de prevenção de doenças, os agentes de saúde informaram que fariam

o cadastro de todas as famílias e visitariam todas as residências da Rocinha. Diante dessa informação, uma das participantes da reunião disse:

“Mas esse cadastramento não chegou aqui, não. Aqui é sempre assim, tudo

primeiro é lá (referindo-se a área central da Rocinha), aqui só chega quando acaba lá.

Isso quando chega”.

A fala dessa moradora foi imediatamente apoiada pelas demais participantes

da reunião, que reclamaram também do atendimento da UPA. Em uma visita à Clínica da Família, os pesquisadores foram informados de que ela somente atendia aos

moradores de uma determinada área e que toda a Rocinha é setorizada para esse tipo de serviço público. A Clínica em questão era responsável pelos moradores de áreas centrais como Vila União, Dionéia e Vila Verde. A região do Roupa Suja era atendida fora da Rocinha – no Centro Municipal de Cidadania Rinaldo de Lamare, localizado no bairro de São Conrado, e que também prestava serviço para os sub-bairros Trampolim, Barcellos, Boiadeiro, Campo Esperança, Canal (valão), Raiz e Morro da Alegria. Já o morro do Capado e a Macega ainda não eram atendidos por nenhuma das clínicas do governo estadual.

A complexidade do terreno da Rocinha se revela ainda em um outro depoimento

de uma moradora relatando o não recebimento em sua casa – no setor Roupa Suja – de cartas e contas a pagar. Devido a isso, ela usava o endereço de um amigo que morava

“lá embaixo”, ou seja, na parte da Rocinha mais próxima à cidade formal, para a entrega de suas correspondências. Outra opção, segundo a moradora, era pagar R$5 (cinco Reais) – aproximadamente dois dólares – ao “carteiro amigo” (um agente alternativo que entrega cartas em locais aonde os correios não chegam). Porém, segundo ela, tal opção não era muito segura, pois muitas vezes os tais agentes atrasavam a entrega da correspondência e, no caso das contas a pagar, isso ocasionava prejuízos.

Microsseguros na favela da rocinha

66

Tais relatos reiteram a complexidade da Rocinha e expõem desde suas

entranhas a marginalidade das subáreas situadas nos limites geográficos ou

de expansão do que ainda se pode chamar de favela, com precárias vias de

acesso aos MCC’s mais formais. Na Rocinha, os moradores mais pobres estão

nas regiões de difícil acesso – o que mostra como as vias de acesso são fatores cruciais e explicativos para a estrutura social da mesma.

As obras do PAC, atualmente em andamento, apesar de visarem

melhorias substanciais na mobilidade dentro e no acesso à Rocinha não

preveem o atendimento a todas as áreas com dificuldade de acesso dentro da

favela. Com isso, a tendência é a de que a desigualdade pode vir a aumentar

com as obras de infraestrutura em suas regiões centrais.

Foi com base no levantamento de Nodos e Microcentros Comerciais

Compostos na Rocinha que se constatou a importância das vias de ligação

existentes entre esses centros comerciais e as subáreas do entorno, bem como

em relação à conexão entre as áreas periféricas e as áreas centrais. De acordo

com as observações de campo, os conceitos de MCC e Nodo, na Rocinha, não

são estanques, permitindo certa gradação dentre eles, até um ponto em que

se cruza uma linha imaginária fronteiriça.

O fenômeno aqui descrito pode ser comparado aquele da propagação

do som, no qual a amplitude da onda sonora diminui progressivamente com

o distanciamento da fonte que a gerou. Assim acontece na Rocinha, em que

o Nodo principal irradia sua influência a uma certa distância até ir se enfra-

quecendo e encontrar um outro Nodo (ou estação retransmissora) que, da

mesma maneira, propaga sua influência a uma certa distância e pelo mesmo

meio – a Estrada da Gávea – até chegar no último Nodo, no final da Rocinha

A Estrada da Gávea serve como um meio de transmissão para os três Nodos

nela contidos.

Pela extensão territorial da Rocinha e pela dificuldade de acesso a

Microsseguros na favela da rocinha

67

algumas de suas regiões, observam-se ainda concentrações comerciais mistas,

em que é possível encontrar produtos de mercearia e bar em um mesmo es-

tabelecimento. É possível perceber também que quanto melhor se apresenta

uma via de acesso; quanto mais central e pavimentada, maior é a presença

de estabelecimentos comerciais. Essa correlação pode ser atribuída ao maior

fluxo de pessoas em áreas que apresentam tais características.

No caso da Rocinha, a presença de estabelecimentos comerciais depende

da existência ou inexistência de via carroçável. Em áreas com vias carroçáveis

pavimentadas, e não muito íngremes, há maior intensidade comercial. Um

exemplo disso é a própria Rua 2, em que a via de acesso é carroçável e a

circulação das pessoas é mais intensa. Nessa área o comércio é também mais

concentrado.

Na Rua 2, situada exatamente no meio da Rocinha observa-se o fluxo de

muitos moradores da Rua 1, que a tem como uma de suas principais vias de

ligação, e recebe ainda a principal saída da Rua 3.

Tais características fazem da Rua 2 uma importante via de interligação

entre centro e periferia da favela, cada vez mais com características centrais, de convergência de fluxo de pessoas e de comércio.

Na observação da Rua 2 constatou-se a intensa movimentação de

pessoas e moto-táxis desde as áreas consideradas centrais, Largo do Boiadeiro

e Estrada da Gávea, em direção aos becos da Rua 2, Rua 1 e até da Rua 3. Do

início da Rua 2 até um pequeno largo ali existente, há obras do Programa

de Aceleração do Crescimento (PAC) que visavam um alargamento da rua e

ainda a construção de um novo acesso.

Inicialmente considerada uma zona de MCC do tipo A (aquele que

apresenta algumas características de um núcleo comercial, como a impes-

soalidade nas relações e/ou a diversidade das formas de pagamento), a Rua 2

Microsseguros na favela da rocinha

68

teve sua classificação modificada a partir de novas observações feitas em um

dia de intensa movimentação, um feriado. Em tal ocasião foi possível notar

a impessoalidade nos relacionamentos comerciais, em especial nas casas de

materiais de construção, característica de áreas centrais, também identificadas como locais de passagem. Entretanto, foi observado, em menor intensidade,

o tratamento pessoal entre clientes e comerciantes. Assim, passou-se a

conceituar essa área como uma área mista, ou seja, como uma área comercial

que manifesta características de um centro comercial, como a impessoalida-

de, concomitantes com a pessoalidade peculiar aos microcentros comerciais.

Este é o caso de muitos comércios situados ao longo da Rua 2.

Também na região conhecida como Setor do 199 as relações de pessoa-

lidade e impessoalidade tornam o local uma zona mista no tratamento entre

clientes e comerciantes. Pode-se, contudo, conceituar essa área comercial

como um MCC por causa das relações pessoais. Em observação feita em um

domingo, percebeu-se um alto grau de intimidade entre clientes e comer-

ciantes, além da prática recorrente do fiado.

Marcos Alvito50 defende a diferenciação entre fluxo e circulação de

pessoas. Para este autor, o fluxo de pessoas consiste num movimento que

tem um fim muito específico, como ir ao trabalho, à escola etc. Já a circulação diz respeito a um movimento com um diagrama de relações, ou seja, é um

movimento voltado para os relacionamentos locais. Nesse sentido, o fluxo

da população é constante e nas vias adequadas. Entretanto, a circulação de

pessoas, não.

A escassa circulação pode resultar no fenômeno da criação das zonas

“marginais”, com difícil acesso, e que recebem menor influência dos Nodos ou

MCC’s, por onde é possível supor que circulem as informações e oportunida-

des mais relevantes para o sistema.

50 Zaluar, Alba e Alvito, Marcos. Um século de favela. Rio de Janeiro: FGV Editora. 2006

Microsseguros na favela da rocinha

69

3. Por dentro da Rocinha

Localizada em uma das áreas de maior poder aquisitivo do Rio de Janeiro,

a Rocinha ocupa 847.629 metros quadrados entre os bairros de São Conrado e

Gávea, duas áreas residenciais da elite carioca, em plena zona sul da cidade. Como escreve Gerônimo Leitão51, a Rocinha fica num terreno em forma de concha e “é

constituída de uma parte plana, que representa o núcleo central, junto do túnel Dois Irmãos (hoje Zuzu Angel), desenvolvendo-se, em seguida, por terrenos de

grande declividade até o topo do morro.”

A favela está separada de São Conrado pela autoestrada Lagoa-Barra

(RJ-071); delimitada na parte de cima do morro pela mata do Parque Nacional da

Tijuca e à nordeste pela Estrada da Gávea que a separa do bairro da Gávea.

O terreno ocupado pela Rocinha tem algumas áreas com grande risco de

erosão e está sujeito a deslizamentos de terra, especialmente na região do Parque Nacional da Tijuca. Grande parte de suas ruas e de suas travessas foram delimitadas a partir da construção de barracos que foram se justapondo, desenhando assim

uma forma sinuosa na favela e becos sem saída.

Vias Principais

A Estrada da Gávea, além de interligar os bairros de São Conrado e Gávea,

é a principal via da Rocinha. Funciona como uma “espinha dorsal” do território, pois é uma importante via de circulação de bens, pessoas e serviços. A estrada

passou por apropriações simbólicas e ressignificações históricas de alguns

de seus trajetos. A localidade conhecida como Rua 1 deve seu nome ao fato

de ter sido a primeira rua da favela, quando considerado o trajeto no sentido

Gávea-São Conrado. Na realidade, tanto a Rua 1, quanto a Rua 2, faziam parte

do primeiro loteamento da Rocinha. A nomeação dessas duas ruas se estende

ao seu entorno imediato que é a Estrada da Gávea.

51 LEITÁO, Gerônimo. Dos Barracos de Madeira aos prédios de quitinetes. Rio de Janeiro: EdUFF. 2009.

Microsseguros na favela da rocinha

70

Um dos fatores que diferenciam a Rocinha de outras favelas é justamente

a Estrada da Gávea, que corta toda a sua extensão territorial e facilita o acesso de bens, serviços e pessoas. Além disso, é a única via carroçável da favela que tem mão-dupla.

Da Estrada da Gávea saem mais duas vias principais e muito importantes

para a Rocinha: o Largo do Boiadeiro e a Via Ápia. Elas estão situadas às margens da autoestrada Lagoa-Barra, por onde circulam numerosas linhas de ônibus

com destinos a diversos pontos da cidade. Essas áreas concentram intensa

atividade comercial e de prestação de serviços. Pela localização estratégica,

as vias comportam trânsito intenso de pedestres que são em sua maioria

moradores de diversos pontos da Rocinha.

As principais vias são asfaltadas, mas com os mesmos problemas

encontrados em diversos pontos da cidade formal. Assim sendo, a presença

de buracos não é uma característica exclusiva da favela. O lixo se acumula

pelas ruas principais sendo encontrado em praticamente todos os espaços

não utilizados por imóveis. Não há caçambas para armazenamento apropriado

dos dejetos, que ficam expostos, ocasionando a proliferação de insetos e de

doenças – além, é claro, de odor desagradável. É possível situar alguns pontos de acúmulo de lixo na Estrada da Gávea e no Largo do Boiadeiro.

Ao longo da Via Ápia e do Largo do Boiadeiro existem ruas (conhecidas

como travessas) que interligam as duas áreas, mas não possibilitam o trânsito

de veículos. Apenas pedestres e moto-táxis conseguem trafegar por elas.

As vias principais têm edificações com gabaritos bastante elevados,

de cinco a seis pavimentos. São servidas de água encanada, de acesso à

energia elétrica, bem como de serviços de telefonia e de internet. Entretanto,

apresentam com certa frequência vazamentos de água e até mesmo de esgoto.

Não há calçadas para os pedestres nessas duas vias. E quando há calçada,

Microsseguros na favela da rocinha

71

a mesma é ocupada por mercadorias das lojas ou por veículos estacionados.

Os pedestres disputam espaço com os veículos devido à grande circulação e

correm riscos permanentes.

Vias Secundárias

Consideram-se vias secundárias as ruas 1, 2, 3 e 4; bem como a Vila Verde,

pois atendem áreas densamente povoadas, possibilitando o acesso e a grande

circulação de pessoas e fluxo de bens de consumo aos locais próximos dos

centros, e se conectam à Estrada da Gávea. Nas vias secundárias são encontrados pequenos e médios estabelecimentos comerciais, suprindo as necessidades

básicas da população local. Essas ruas têm importância histórica, pois são os

vetores de crescimento da Rocinha na ocupação do Morro Dois Irmãos.

Vale observar a grande diversidade dessas vias, tanto do ponto de vista

da infraestrutura, quanto do comércio. Entretanto, elas têm em comum a

importante funcionalidade de atender a um grande porcentual da população

local, possibilitando o acesso às vias principais.

A primeira distinção que deve ser feita entre as vias principais e as

secundárias é que as últimas são reconhecidas como ruas, enquanto vias de

circulação, mas originam também denominações de localidades situadas no

entorno imediato delas. Esse entorno recebe o nome da via e passa a ser re-

presentado como um sub-bairro. As chamadas Ruas 1, 2, 3 e 4, por exemplo,

têm grande importância histórica dentro da Rocinha, com dito acima. Não é

estranho, porém, alguém falar que mora na Rua 1, quando na verdade reside

em algum ponto da Estrada da Gávea, próximo a ela.

Algumas vias que ligam a Estrada da Gávea à parte mais plana da favela

têm nomes de ruas, mas não podem ser tratadas literalmente como tal por re-

presentarem subáreas. A exceção é a Rua 2 que apresenta uma diferenciação

em relação às outras. Está localizada em área entre morros e rochas, sem in-

Microsseguros na favela da rocinha

72

fraestrutura e com valas a céu aberto. Situada em uma das curvas acentuadas

da Estrada da Gávea, a entrada da Rua 2 tem largura suficiente para ser uma via carroçável. Entretanto, ela se estreita em determinado ponto de sua extensão,

concentrando grande quantidade de vielas. Apesar de via secundária, é uma

das ruas mais valorizadas da Rocinha, importante por ter comércio variado e ser transitável com passagem para carros, caminhões e motos. Atualmente recebe

intervenções do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); porém, ainda

se assemelha mais a um “beco” do que a uma rua em sua maior parte.

Já as ruas 1, 3 e 4 são, na realidade, becos e escadarias que permitem

apenas a passagem de pedestres. A Rua 1 possibilita o trânsito de uma parte

elevada do território até a sua parte plana. No entanto, apresenta diversos

vazamentos de água e esgoto e algumas lajes das casas que têm segundo

pavimento avançam pelo beco, impossibilitando a incidência direta do sol.

É uma rua crucial, pois atravessa as regiões mais pobres da Rocinha, como a

Roupa Suja, na qual se observam alguns barracos de madeira.

As Ruas 3 e 4 também passam por intervenção direta do Programa de

Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. A Rua 4 era o local da

favela com o maior registro de tuberculose e o maior número de doentes

devido à falta de ventilação. Tal número vem caindo significativamente com

a urbanização e o alargamento da área – antes uma viela de 60 centímetros,

atualmente apresenta até 12 metros de largura, estando mais clara e arejada.

A Rua 3, a menor via secundária em extensão, começa na Estrada da Gávea

e termina na Rua 2. Tem as mesmas características das outras vias secundárias:

estreita, com pouca ventilação e pavimentação irregular. Contudo, apresenta

grande movimentação e concentração de pequenos comércios.

Já a rua que circunda a região conhecida como Vila Verde, talvez pela

proximidade com a Estrada da Gávea, não apresenta os problemas das demais

vias, pois sua largura permite a entrada de veículos, pelo menos em um sentido.

Microsseguros na favela da rocinha

73

Além disso, tem infraestrutura semelhante à da Estrada da Gávea e está atrás

de uma grande escola e do único hospital público da Rocinha, o que aumenta

consideravelmente seu trânsito.

Vias terciárias e condições de infraestrutura

As vias internas destinadas a atender quase que exclusivamente a

população das imediações foram aquelas consideradas como terciárias. A

diferença entre as vias secundárias e as terciárias é que estas últimas servem a uma porcentagem menor da população, enquanto as primeiras atendem áreas

relativamente grandes desse território, tendo também maior importância do

ponto de vista do fluxo de bens e serviços. Entre as vias terciárias encontram-

se duas que são carroçáveis – a Rua Dionéia e a subida da Cachopa – e as

demais que não são carroçáveis, pois as condições de tráfego são prejudicadas

pela própria declividade do terreno.

Como exemplo de via terciária não carroçável estão os becos, como o Faz

Depressa, situado em uma parte relativamente elevada da Estrada da Gávea.

O Faz Depressa, além de íngreme, é tortuoso, sendo composto de escadas

com irregularidades e ladeiras. Ao longo de toda a sua pequena extensão, tem

estabelecimentos comerciais dispersos, que acumulam funções diversas como

as de bar e mercearia. Essa via interliga o interior da localidade 199 à Estrada da Gávea.

Existem muitas outras vias terciárias que apresentam essas característi-

cas, em geral, becos e vielas tortuosos, espremidos entre as casas, com precárias condições de ventilação. Além disso, assim como as demais vias, não têm identificação. São verdadeiros labirintos que ninguém sabe onde vai dar. Esses

becos podem estar interligados às vias primárias, secundárias e até terciárias.

O beco conhecido como Travessa Gomes era realmente uma travessa, com

maior largura e extensão, mas com o passar dos anos, as construções foram

estreitando a travessa de tal forma que hoje ela é considerada um beco.

Microsseguros na favela da rocinha

74

A história da formação da maioria das vias da Rocinha nos introduz

dentro de um território conhecido apenas por seus moradores. Alguns becos,

em vez de conduzirem a outras vias de circulação, conduzem às residências.

A maior parte das vias da Rocinha é desse tipo e pode ser melhor visualizada

através de uma foto aérea. Tais vias têm em comum a característica principal

de serem vias estreitas, o que muitas vezes inviabiliza ou dificulta o fluxo de bens e serviços, como a entrega de cartas e de mercadorias.

Microsseguros na favela da rocinha

75

4. Conceitos espaciais para entender

as trocas em espaços informais

Para conhecer a Rocinha é preciso explorar cada pedaço de sua extensa e

complexa geografia. Gigantesca, ela é cheia de nuances e particularidades. Além disso, cada microárea tem uma dinâmica que precisa ser observada e compreen-dida. Dois conceitos desenvolvidos pela pesquisa IMR foram fundamentais para

entender o funcionamento econômico da Rocinha: Nodo e Microcentro Comercial

Composto (MCC).

O centro comercial, ou Nodo, caracteriza-se pela grande concentração

comercial e pela significativa circulação de pessoas, o que possibilita também

o anonimato e o desenvolvimento de relações impessoais no comércio. São,

por excelência, lugares de trânsito, nos quais as interações ocorrem apenas

comercialmente – o que na maioria das vezes gera maior formalização nos aten-

dimentos e nas formas de pagamento. Os Nodos têm papel fundamental na

dinâmica comercial de uma área formal urbana, pois funcionam como dispositi-

vos centrais de desenvolvimento econômico e de circulação de capital.

Os Nodos são os locais da transitoriedade e podem também ser definidos

pelo conceito de “não-lugar”, do antropólogo francês Marc Augé. Este conceito

se contrapõe ao conceito de “lugar” que compreende os locais com os quais os

moradores têm fortes vínculos pessoais.

Em contraposição ao Nodo, os Microcentros Comerciais Compostos (MCC)

se caracterizam como núcleos comerciais relativamente pequenos que atendem

a um número reduzido de pessoas, o que facilita o desenvolvimento de relações

pessoais, especialmente entre os comerciantes e seus fregueses. Não são locais de trânsito, ou seja, não se caracterizam como não-lugar e sim como lugar, no qual é possível não apenas passar, mas também interagir numa rede de sociabilidade

mais intensa.

Microsseguros na favela da rocinha

76

No MCC é possível encontrar características do lugar antropológico que é

como a segunda natureza do morador, pois ali ele não apenas reside, mas também

compartilha uma história familiar e relações pessoais consolidadas. Disso decorre a formação de vínculos marcados por intimidade relacional.

Os Nodos e os MCC’s são categorias relacionadas com o fluxo de mercadoria

e de bens. Daí a importância das vias que os interligam.

Foram classificados como Nodos grandes centros de interação comercial

e fluxo de pessoas existentes nas vias principais da Rocinha: Via Ápia, Largo do Boiadeiro e a Estrada da Gávea. Já os comércios situados em vias secundárias e

terciárias foram classificados como Microcentros Comerciais Compostos (MCC).

Essa categorização vai além da localização espacial. Entretanto, o local é

importante para compreender a dinâmica comercial existente no próprio Nodo e

entre os Nodos e os MCC’s. Como os Nodos estão localizados nas vias principais da favela, há ali uma grande circulação de pessoas que utilizam essas vias como pontos de “passagem”, predominando assim a impessoalidade nas relações comerciais,

o que significa dizer que nesses centros comerciais é possível, inclusive, manter total anonimato.

Um dos parâmetros utilizados para aferir a pessoalidade e a impessoalidade

das relações comerciais foram as formas de pagamento oferecidas pelo comércio

local. Observou-se que os Nodos oferecem formas de pagamento impessoais,

como o pagamento em dinheiro e o pagamento com cartões de crédito e de

débito. Já nos MCC’s, além do pagamento à vista, ocorria, em distintos graus, a prática do fiado, o que supõe uma relação mais pessoal, pois “só se vende fiado para os conhecidos”. A institucionalização dessa prática não é decorrente apenas da ausência ou impossibilidade de implantação de outras formas de pagamento,

mas revela a manutenção de laços pessoais que resistem à formalização das

relações comerciais.

Microsseguros na favela da rocinha

77

No caso da Rocinha, esses dois conceitos foram utilizados apenas como ins-

trumentos de análise. Isso porque, na realidade, a polaridade Nodo/MCC é fugidia: podem-se encontrar características de um ou de outro em maior ou menor grau

de intensidade em uma mesma microárea. Os conceitos de Nodo e de MCC não

poderiam ser utilizados como categorias estanques. Devido aos diversos graus de impessoalidade verificados nos Nodos da Rocinha, adotou-se uma classificação

graduada que varia entre A e B, passando pela fronteira Nodo/MCC e chegando

à classificação igualmente graduada dos MCC’s. Dessa maneira, a classificação

de Nodo A é atribuída aos centros comerciais mais impessoais, como o comércio

situado na Via Ápia. Já a classificação de Nodo B se estende aos comércios que

apresentam impessoalidade em menor grau. O mesmo se aplica em relação aos

MCC’s nos quais foram observadas distintos graus de pessoalidade nas relações

comerciais. Verificou-se, inclusive, a ocorrência de relações pessoais e impessoais, simultaneamente, em uma mesma região comercial e, às vezes, em um mesmo

comércio. Nesses casos, a classificação limítrofe Nodo/MCC foi a mais adequada.

As graduações nas relações comerciais nos MCC’s deram origem às classifi-

cações – do menor ao maior grau de pessoalidade – de MCC A, B, C e Mini-MCC,

este popularmente conhecido como birosca52.

Tipos de Nodos Comerciais e MCC

O aspecto da presença e intensidade de relações interpessoais durante as

trocas econômicas foi o que serviu para determinar e definir as diferenças entre as categorias tanto de Nodo, quanto de MCC. São estas que, em última análise,

traçam o perfil da Rocinha.

Nodo A – Apresenta características de um grande centro comercial,

com alto grau de impessoalidade nas relações comerciais; grande

trânsito de pessoas; diversidade de empreendimentos comerciais,

com a presença, inclusive, de distribuidores de produtos. Funciona

como um grande polo comercial capaz de atender a todos os mo-

52 bi.ros.ca: [sf] Pequeno armazém onde se vendem gêneros de primeira necessidade e bebidas alcoólicas.

Microsseguros na favela da rocinha

78

radores locais e ainda a consumidores do entorno da favela. Nele se

observa uma diversidade de formas de pagamento, porém, todas as

suas práticas têm alto nível de formalidade.

Nodo B – Apresenta muitas das características do Nodo A. Entretan-

to, registra menor grau de atração de consumidores externos, funcio-

nando como um grande polo comercial para os moradores de seu en-

torno mais próximo.

Nodo/MCC – Apresenta características de um centro comercial, ou

Nodo e, ao mesmo tempo, características de um MCC. Isso significa

que tem um nível de impessoalidade menor e trânsito de pessoas mais

reduzido. Há pessoas com menor grau de anonimato. Os estabeleci-

mentos comerciais podem apresentar, ainda que de modo incipiente

e esporádico, a prática do “fiado” nas transações comerciais.

Os tipos ideais

Max Weber (1864-1920), principal representante da sociologia alemã, foi

um dos principais críticos do positivismo nas lei sociais. Para ele a ciência social não poderia reduzir a realidade empírica a leis. Isso porque, ao estudar um tema, o pesquisador se vale de diversos aspectos ligados à realidade, inclusive seus

próprios valores, para dar sentido a uma realidade particular. A partir daí, Weber deu forma aos tipos ideais, esquemas criados para analisar a sociedade.

Na obra A objetividade do conhecimento nas Ciências Sociais, ele assim define o tipo ideal:

“Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários

pontos de vista e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos

isoladamente dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor

número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo os pontos

de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo

de pensamento. Torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade esse

Microsseguros na favela da rocinha

79

quadro, na sua pureza conceitual, pois se trata de uma utopia. A atividade his-

toriográfica defronta-se com a tarefa de determinar, em cada caso particular, a proximidade ou afastamento entre a realidade e o quadro ideal (...) Ora, desde

que cuidadosamente aplicado, esse conceito cumpre as funções específicas

que dele se esperam, em benefício da investigação e da representação”.53

Portanto, para dar conta das particularidades dos Nodos e Microcentros

Comerciais Compostos, foi usado o conceito de “tipos ideais” para estudar as

microáreas da Rocinha. A construção de “tipos ideais” segue a lógica clássica

weberiana. O sociólogo alemão coloca um dilema para o cientista da cultura,

que é o fato de os ‘valores’, além de não terem validade universal, serem de

difícil fundamentação científica. No caso dos valores, mesmo contando com

certa evidência empírica, não se pode proceder como na análise de seres

inanimados (chuva, frio, etc.), os quais não são dotados de “sentido”. Ao

contrário das ciências naturais, há nas ciências da cultura muito de emotivo, de passional – em síntese, de irracional. Daí a dificuldade de se fazer uma análise da totalidade dos fatos nessas ciências. Nelas não há certezas absolutas, mas

aproximações e eternas hipóteses, realizadas por meio da tentativa de identi-

ficação dos sentidos das ações humanas, assentadas nas subjetividades.

A ciência empírica não deve dizer ao homem o que fazer. Ela não pode

ser avaliativa, mas analisar nas ações sociais – recortadas por valores culturais e pessoais – o processo de tomada de decisões. O meio metodológico dos

tipos ideais possibilita a criação de uma ponte que permite unir o componente

subjetivo (que não pode ser encontrado na realidade) e o conhecimento

empírico para estabelecer o significado cultural dos fenômenos e formular

proposições empíricas sobre eles. Os tipos ideais se fundamentam no conhe-

cimento já existente, por meio dos quais se tenta abordar a realidade empírica.

Considerando a complexidade da Rocinha, verificou-se a necessidade

de elaborar “tipos ideais” de Microcentros Comerciais Compostos. Foram

53 WEBER, Max. A “Objetividade” do conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política. In: Metodologia das ciências sociais. Parte I. São Paulo: Cortez, 1992, p. 136.

Microsseguros na favela da rocinha

80

utilizadas algumas microáreas da Rocinha como expressão maior da existência

desses tipos ideais de MCC’s, mas isso não significa que tais fenômenos não se

repitam em outros pontos da favela. À princípio, foi estabelecido como ponto

de diferenciação entre eles a institucionalização ou não da prática do fiado e

os diversos graus em que ele pode aparecer, como exposto na classificação

gradativa.

Nodos

Como já foi dito, os Nodos identificados na Rocinha se encontram

justamente nas vias principais, que foram também vetores do crescimento

e da ocupação desse território. São, portanto, as áreas mais consolidadas da

localidade, tanto em termos de infraestrutura, como de meios de comunicação.

As regiões que têm maior atividade comercial são vias de grande

circulação de pessoas, e, portanto, não-lugares, ou lugares de passagem e

trânsito, que possibilitam o anonimato dos clientes. Na Rocinha, o maior Nodo

está localizado na parte plana do território: no Largo do Boiadeiro e na Via

Ápia. Por ali transitam moradores, visitantes ou clientes, com acesso facilitado pela estrada Lagoa-Barra. Pela intensidade comercial, essa área foi classificada como Nodo A.

Em toda a extensão da Estrada da Gávea se reconhece outro tipo de

Nodo, identificado como de tipo B, pois apresenta grande atividade comercial,

mas atende principalmente moradores de seu entorno e, em menor grau, a

população “do asfalto”. Esse Nodo seria caracterizado por uma horizontalida-

de, ou seja, seria dedicado aos moradores das regiões situadas imediatamente

à direita e à esquerda da área.

O Nodo A concentra moradores de toda a localidade. E, portanto, marcado

por uma verticalidade que serve desde os moradores da parte superior do

morro até a parte plana da Rocinha.

Microsseguros na favela da rocinha

81

Este fluxo comercial só é possível devido às vias de ligação existentes. A

arquiteta Danielle Klintowits54, em sua tese de mestrado, A (re) invenção da praça; a experiência da Rocinha e suas fronteiras, critica essa concentração comercial no Largo do Boiadeiro e na Via Ápia. Entretanto, a distribuição do comércio, como

a própria arquiteta sugere, só seria possível com a melhoria das vias de ligação existentes e com a criação de mais vias de circulação.

Nodo A

O centro comercial que engloba o Largo do Boiadeiro, a Via Ápia, a Via Leste

e a Estrada da Gávea, a partir do número 523, foi classificado como Nodo A. Essa área é informalmente reconhecida por moradores locais e dos bairros do entorno

como um grande centro comercial por seu dinamismo e pela grande diversidade

de produtos e de serviços que oferece.

A diversidade comercial nesse núcleo é maior no Largo do Boiadeiro.

Entretanto, as vias Ápia e Leste, assim como a área da Estrada da Gávea, a partir do número 523, também concentram expressiva atividade comercial. A presença

de grandes empresas e bancos atesta o dinamismo do comércio no qual é

possível encontrar produtos com preços comparáveis aos do centro da cidade. O

movimento é intenso nessa área; caminhões de entrega de redes de atacadistas

são constantemente vistos nessas vias, congestionando o já intenso trânsito

de pedestres e veículos. O dinamismo da região é destacado pelo depoimento

dos moradores da Rocinha. Para eles, a importância desse núcleo comercial está

expressa na frase “aqui na Rocinha tem de um tudo”.

54 Danielle Cavalcanti Klintowitz – Tese de Mestrado em Urbanismo: “A (re) invenção da praça; a experiência da Rocinha e suas fronteiras”, PUC Campinas, 2008

Microsseguros na favela da rocinha

82

A tabela seguinte contém a lista de tipos de estabelecimentos comerciais

ali presentes:

Tipo de estabelecimento e/ou serviço

Via Leste

Largo do Boiadeiro

Via Ápia

Est. da Gávea a partir do nº 523

Advogado

01

Restaurante

03

03

02

02

Lanchonete

07

01

06

Bar

06

15

03

06

Loja de reciclagem

01

Distribuidora de bebidas

01

02

Distribuidora de água

01

03

Distribuidora alimentos

01

Roupas femininas

01

01

Roupas masculinas

01

02

Roupas infantis

01

01

02

Roupas masculina, feminina & infantil

05

03

Sapataria

01

02

01

01

Salão Masculino

01

01

01

Salão unissex

03

03

01

Sacolão

01

01

Med. especialidades

01

02

Assist. eletrodoméstico.

01

02

01

Assist. computação

02

Artigos para festa

01

Igrejas evangélicas

01

04

02

Igreja católica

01

Lojas de telefonia

02

01

01

02

Loja de CDs

01

01

Dentistas

03

03

01

Bazar

03

03

Farmácia (grande)

01

02

Farmácia (pequena)

01

01

Lan House

04

01

01

Mercado (grande)

03

Mercados (pequenos)

09

02

01

Padaria (grande)

03

Padaria (pequena)

03

Açougue (médio)

01

Açougue (grande)

03

Perfumaria

02

Granja

03

Casa do norte

02

Banco

02

01

Papelaria

02

Loja de doces

01

03

Chaveiro

02

Relojoaria

01

Loja de plásticos

01

Peixaria

01

Loja de Móveis

04

03

Vidraçaria

01

Autopeças

04

05

Loja de material de construção (grande)

01

Creche

01

01

Outros

Camelôs

Caixa Bradesco, camelôs

01 ótica, 01

01 garagem,

e tabacaria

pensão, 02

Ag. Automóveis, Light,

lojas de art.

Rádio comunitária, carteiro amigo,

fotos

02 lojas de gesso, 01 ótica,

Emoções (feira de roupas), IURD

Microsseguros na favela da rocinha

83

Um morador da Rua 1 afirma que antes se deslocava até um supermercado no

bairro vizinho de São Conrado para abastecer sua casa e que passou a fazer as compras “de mês” no Largo do Boiadeiro, pois as mercadorias “custam o mesmo preço do supermercado situado fora da Rocinha”.

Além do fator preço, outro motivo pelo qual os moradores muitas vezes preferem

comprar nesse núcleo comercial é a proximidade da residência. Comprar em mercados dos bairros vizinhos equivale a ter um custo adicional com o transporte. Para quem não tem automóvel, isso pode sair muito mais caro.

É certo que a extensão desse núcleo comercial não se aplica somente aos clientes diretos. É possível perceber que sua influência se estende aos Microcentros Comerciais Compostos por meio dos fornecedores e distribuidores de bebidas e alimentos que abastecem os pequenos comércios dessas microáreas. A abrangência deste Nodo é muito grande. Por sua posição estratégica, tem atraído consumidores de bairros do entorno e pode-se dizer, inclusive, que tem funcionado como uma espécie de “centro da cidade” para muitos dos moradores de favelas vizinhas, como o morro do Vidigal e Parque da Cidade.

Os dois NODOS B

Uma vez identificado o Nodo principal, localizado na parte inicial da Rocinha,

surgiram dúvidas sobre a existência de outros centros comerciais semelhantes na Rocinha.

Isso porque se percebeu que as ruas 1, 2, 3 e 4 ligavam, de uma forma ou de outra, algum ponto da Estrada da Gávea até o Nodo principal.

A conclusão foi a de que o Nodo principal, em toda a sua variedade de oferta de produtos e serviços, e ainda por seu tamanho; seria capaz de atender toda a localidade, mas a complexidade tipográfica da Rocinha e a distância de outros pontos superpopulo-sos da localidade fez surgir outros dois Nodos.

Geograficamente falando, eles são cruciais para atender a demanda de toda a

população. Um destes Nodos está localizado bem no meio da Estrada da Gávea e outro ao final.

Microsseguros na favela da rocinha

84

Em suma, a Rocinha possui três grandes nodos comerciais que abastecem

toda a sua população, sendo responsáveis, ainda e na maioria das vezes, pelo

abastecimento dos Microcentros Comerciais Compostos.

A verificação da existência de mais dois Nodos Comerciais mostra a

importância das vias secundárias no fluxo de pessoas na Rocinha. O Nodo iden-

tificado no meio da Estrada da Gávea, um dos reconhecidos como Nodo B, está

localizado exatamente na entrada das ruas 3 e 4, uma bem próxima da outra. Já o outro Nodo B, no fim da mesma via principal, pode ser identificado na entrada da Rua 1.

A Rua 2, apesar de não estar relacionada a um Nodo, tem dois Microcentros

Comerciais Compostos de suma importância para a população local que ficam

próximos à Rua 1, com ligação direta para a Rua 3. A Rua 2, portanto, serviria como um elo entre os dois Nodos B.

É importante ressaltar esses pormenores, pois eles dão ideia da distribuição

dos centros comerciais, tornando-os fundamentais para a dinâmica da população

em seu dia a dia e uma opção para os que não querem descer até o Nodo principal, quase “lá no asfalto”.

Para melhor identificar os dois Nodos B, chamaremos de Nodo 2 aquele

localizado no meio da via principal e de Nodo 3 aquele que está no fim da mesma via.

O Nodo 2 atende a um ponto de convergência entre várias regiões

importantes da Rocinha. Além das ruas 3 e 4, também abastece de forma direta

sub-bairros como Dionéia, Paula, Brito, Cachopa e Fundação. Possui algumas características interessantes de serem verificadas. O ponto em que o centro comercial está situado é o de maior fluxo de carros, caminhões e motos de toda a localidade, gerando muitos engarrafamentos e dificultando o deslocamento de caminhões e

a descarga de produtos.

Microsseguros na favela da rocinha

85

Um comerciante de um pequeno bar localizado na rua Dioneia explica

como funciona a atividade comercial desse Nodo e a relação dele com esses

sub-bairros:

Essa ruas são enladeiradas. Ninguém que está passando lá na Estrada da

Gávea sobe aqui pra comprar, mas quem mora aqui é obrigado a descer, então

passa lá por baixo; por isso que lá tem até Bob’s. As lojas daqui vendem só pra quem mora aqui mesmo...

Bob’s é uma rede brasileira de fast food que compete com o McDonald’s

e sua presença é emblemática na caracterização dos Nodos Comerciais. Uma

rede de fast food não vai se caracterizar pela pessoalidade na relação com seus clientes e sim por um atendimento cada vez mais rápido; em outras palavras,

cada vez menos pessoal. Uma franquia desse tipo de comércio na Rocinha ainda

permite, mesmo que a grosso modo, apontar um reconhecimento por parte do

empresariado do potencial de compra e consumo dos moradores da Rocinha.

O preço de um lanche completo no Bob’s varia de R$15 a R$25, o que poderia

ser incompatível com a realidade socioeconômica de um “morador da favela”.

Para se ter uma ideia da importância desse Nodo, nele estão estabele-

cidos, além da rede de fast food, uma igreja católica e outra protestante, um clube, uma grande academia de ginástica, cursos de computação. O Nodo 2

ainda “alimenta” vários MCC’s, de tipos e tamanhos diferentes, dos sub-bairros

adjacentes. O poder público se faz presente por meio do grande investimento

e de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para melhorar o

acesso ao local.

O Nodo 3, por sua vez, localiza-se na parte final da Estrada da Gávea, em

um ponto de convergência de sub-bairros e de grande movimentação e oferta

de produtos e serviços. A área abriga também sedes da Companhia Estadual

de Águas e Esgotos (CEDAE) do Rio de Janeiro e da Região Administrativa da

Prefeitura.

Microsseguros na favela da rocinha

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Pelo menos três Microcentros Comerciais Compostos estão instalados

no entorno do Nodo 3, todos eles importantes para a dinâmica comercial e

social daquela região. Um deles é o MCC do setor conhecido como 199, um

microcentro muito ativo e com movimento significativo. É a porta de entrada

da Rocinha para quem vem da Gávea. É a partir dele que se começa a ter

dimensão do tamanho desta localidade. A grande variedade de comércio e

a boa estrutura desses MCC’s também contribuem fortemente para o caos

que é o trânsito naquela região.

Com base na observação, e na entrevista informal de alguns co-

merciantes, esse Nodo também pode ser classificado como misto, pois